Motorizadas e megawatts

Um Arraial Português
Autor: Rui Lage
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-972-568-673-7
Ano de publicação: 2011

Ao escrever sobre Trás-os-Montes no seu penúltimo livro de poemas (Corvo, Quasi, 2008), Rui Lage não se limitou a mostrar como pode ser «triste» a «moral da fábula campestre», encontrada no fim de um «caminho» para fora da cidade (Porto) empreendido em Revólver (Quasi, 2006). Nas palavras de Osvaldo Manuel Silvestre, Corvo correspondeu a um «imperativo»: o de «dar voz» a «quem desapareceu da cena da representação portuguesa». Ou seja, esse outro país dentro do país (o interior) que é geralmente ignorado pelas elites culturais.
Lage leva agora o «imperativo» ainda mais longe, fazendo das festas populares na província, durante o «querido mês de Agosto», o objecto da sua lírica atenta e depurada. Inevitavelmente, há aqui um efeito de estranheza, porque se a «paisagem aturdida» desta poesia é a da estética pimba — bailaricos e casamentos, foguetes no ar, motorizadas e megawatts, luzes que piscam, desacatos, muito pó —, a escrita está no exacto oposto da vulgaridade berrante que descreve. Repare-se na adjectivação inventiva («beijo tangencial», «combustíveis raparigas», «varandas penitentes», «muro cabisbaixo»), no rigor da construção estrófica («Nas escadas alinhados / quais peças de artilharia, / um por degrau refulgem, / entre os vasos, / os instrumentos da filarmónica») ou no modo como em apenas dois versos se fixa uma antinomia, uma atmosfera («Pairam abelhas sobre dálias / e cravos de plástico»).
O olhar de Lage é por vezes irónico, mas nunca depreciativo. O que ele procura são as sombras que se escondem sob a euforia kitsch. No seu tom de fanfarra melancólica, este livro é o belíssimo retrato (sem filtros) da nossa ruralidade, emboscada pelas silvas do abandono.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges