Na Ericeira, com o iate Amélia IV no horizonte

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Quem Diremos Nós que Viva?
Autor: Vítor Nogueira
Editora: Averno
N.º de páginas: 56
Depósito Legal: 317370/10
Ano de publicação: 2010

Os livros mais recentes de Vítor Nogueira organizam-se a partir de uma geografia urbana bem definida. Em Comércio Tradicional (Averno, 2008), há uma deambulação por lojas antigas: drogarias, cafés e barbearias melancolicamente à beira da extinção numa cidade do interior nunca nomeada, mas na qual facilmente se reconhece a transmontana Vila Real – cujo teatro é dirigido por Nogueira há vários anos.
Em Mar Largo (&Etc, 2009), a abordagem tornou-se quase toponímica: os poemas têm como cenário a praça do Rossio, em Lisboa, da sua pavimentação no séc. XIX à natureza multicultural («coração de Babel») que revela nos nossos dias.
Saindo novamente da capital, Quem Diremos Nós que Viva? assenta arraiais na Ericeira – «vasta hospedaria a sete léguas de Lisboa» – mantendo a dicotomia entre dois tempos: desta vez o presente e 1910, em particular a fuga de barco para o exílio inglês da família real, logo que a República foi implantada.
Assumindo os seus «recursos ficcionais», Nogueira convoca várias personagens históricas: D. Amélia, D. Sebastião, o profeta Bandarra (e a sua «perigosa profissão clandestina, acanhada / como o túnel que lhe foi dado escavar»), o regicida Buíça, o fotógrafo que captou o embarque, etc. Os poemas são predominantemente inquisitivos, avançando pergunta a pergunta através de um território de fantasmas, com chão «pouco firme, quase sempre a resvalar». Para prevenir mal-entendidos, o sujeito poético esclarece que é republicano: «só não encontra é razões para festejá-lo» quando o país está «caído no tapete», pronto para a «contagem final».
Não sendo fulgurantes, estes versos revelam o habitual rigor estilístico de Nogueira – um poeta nada ingénuo, para quem a poesia «não é coisa / que salve o mundo nem coisa que o comprometa».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Na Ericeira, com o iate Amélia IV no horizonte”

  1. Francisco on Novembro 18th, 2010 0:43

    José Mario Silva, costumo ler o seu blog mas nunca me senti à vontade e com vontade para escrever comentários em blogs. No entanto, aproveito esta excepção para lher dizer que ele é uma das minhas fontes na hora de visitar as livrarias.
    Mas a verdade é que decidi comentar para eventualmente conseguir informações. Tenho lido alguma coisa em blogs de leitores brasileiros sobre o novo livro do João Paulo Cuenca que faz parte da colecção Amores Expressos. O livro que tem como título “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”. Li textos bastante entusiasmantes sobre o livro e como a cidade do Cuenca para a colecção Amores Expressos foi Tóquio fiquei com muita vontade de ler. Mas, para encomendar o livro pela internet, tem de valer mesmo a pena porque é caro, muito caro.
    Então, o que eu queria saber é se por acaso já leu o livro e se sabe se depois de O Dia Mastroianni haverá uma continuidade na publicação das obras do J.P. Cuenca em Portugal.

    Cumprimentos, e parabéns pelo blog

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges