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Na penumbra da oficina

O livro do sapateiro
Autor: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 57
ISBN: 978-972-20-3971-0
Ano de publicação: 2010

Quatro anos após Analogia e Dedos (Oceanos), livro em que retratou – ora com paixão, ora com ironia – uma galeria de figuras históricas e personagens literárias, Pedro Tamen regressa com um ciclo de 49 poemas que funcionam como um jogo musical de tema e variações, sendo o tema a poderosa imagem de um sapateiro que se entrega ao seu mister, cosendo solas e moldando o couro no interior de uma cave escura, talvez irmã da caverna platónica. Se a comparação entre este humilde operário «quase cego» e o poeta só se estabelece de forma explícita no poema 45, quando o primeiro se diz «acocorado como estava o escriba», o certo é que o livro no seu todo se organiza como uma arte poética que busca no esforço e sacrifício do sapateiro um exemplo e uma espécie de ética da criação.
Preso ao «curto escabelo», ele exerce uma «arte calada / de entre cordeiro e leão», fazendo «do sapato / acto» e transformando «o nada que era / no tudo que será». Sempre na primeira pessoa, explica o seu trabalho, o cuidado posto em cada gesto, esse esmero que torna a ferramenta «leve sendo chumbo». E mostra-nos, em grande plano, a mão com os seus «dedos martelados» e unhas sujas, mão «mordida» onde «os pregos doem». É ela, afinal, a ponte entre o mundo de silêncio, negrume e solidão da cave e essa outra realidade que há-de receber a obra feita, a forma em que o sapateiro se revê, imaginando o «impalpável» pé que lhe dará uso e sentido (como o leitor ao ler o poema). Por vezes há sons – um violino cigano ao longe ou «o roçagar das nuvens» – que permitem adivinhar os mistérios exteriores. Outras vezes alguém traz lá de fora «a liberdade elástica do ar», despertando no sapateiro a inveja do «vento azul dos montes» e o sonho de recuperar a «giesta» ou «um gosto de cerejas» na boca. Mas é só ao tocar a pele curtida de animais que um dia viveram livres na natureza que se dá a «lírica explosão» e então «as pastagens verdes irrompem nesta cave / e tudo se ilumina num sol que não está cá».
Tal como o sapateiro se projecta nos sapatos que saem das suas mãos, Tamen projecta-se no sapateiro. E fá-lo com a destreza verbal do costume. Coeso, compacto, com sólidas costuras, este livro é um hino à dignidade dos artesãos e ao brio de fazer, na «penumbra habitada» da oficina, as coisas bem feitas:

«neste perdido reduto
em que as mãos amadurecem
a peça que fugirá
das mãos dos que não merecem
para andar ao deus-dará
num universo de espanto

em que o amor vai curtido,
calado, surdo, tingido
de uma cor que é o sentido
da salvação que acalanto

– aqui me caio e levanto.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]



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