Na terra dos khazares

cavalheiros_chabon

Cavalheiros da Estrada
Autor: Michael Chabon
Tradução: Fernando Villas-Boas
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-46-1979-8
Ano de publicação: 2010

Michael Chabon (n. 1963) é um autor norte-americano invulgarmente talentoso e ostensivamente camaleónico, capaz de escrever no registo naturalista típico dos textos de ficção da revista The New Yorker (com os seus casais desavindos, as frustrações quotidianas, o tédio da classe média à espera de uma epifania redentora) mas também de regressar a géneros literários considerados menores, reinventando-os à sua maneira. Foi o que fez em A Liga da Chave Dourada (Gradiva, 2003), que junta o escapismo houdiniano ao universo dos super-heróis dos comics, ou em O Sindicato dos Polícias Iídiche (Casa das Letras, 2009), que cruza uma história de detectives com um exercício de História alternativa, no qual o Alasca substitui Israel como Terra Prometida dos judeus sobreviventes do Holocausto.
Precisamente no mesmo ano em que O Sindicato… foi publicado nos EUA (2007), ganhando uma mão cheia de prémios literários no campo da Ficção Científica, Chabon ampliou ainda mais o seu espectro de géneros literários, atirando-se de cabeça a um romance de aventuras puro e duro. Dividido em 15 capítulos, publicados semanalmente pela revista do The New York Times (à boa maneira dos folhetins oitocentistas), Os Cavalheiros da Estrada é um soberbo pastiche dos clássicos de capa e espada, centrado em dois personagens inesquecíveis: Amram, gigante africano que maneja um machado viquingue com runas no cabo de freixo; e Zelikman, um franco judeu, magricela e loiro, iniciado nas artes da medicina, que só veste de negro e é atreito à melancolia.
Soldados da fortuna e ladrões de cavalos, zaragateiros de primeira apanha que fingem duelos para espoliar viajantes nos entrepostos mais manhosos da rota da Seda, eles atravessam o mítico reino dos Khazares (junto ao Mar Cáspio) e a turbulência militar do século X no Cáucaso, para repor uma certa ordem entre as ruínas e depois seguir caminho.
O estilo de Chabon é deliciosamente anacrónico, com frases longas, barrocas, multiplicando detalhes e metáforas. Há muita acção a galope, muita luta, muito sangue, muita intriga, muitos golpes de teatro. Imaginem Alexandre Dumas em modo irónico, consciente dos seus truques e excessos. Literatura de entretenimento, claro, mas gourmet. Tão boa que até os intelectuais mais preconceituosos a podem devorar sem sentimentos de culpa.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Na terra dos khazares”

  1. Jorge on Julho 22nd, 2010 12:57

    This is outstanding. Read the original. Chabon is a master. I still think that the Mysteries of Pittsburgh is his best novel.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges