No labirinto da literatura

Os livros que devoraram o meu pai
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-21-2095-1
Ano de publicação: 2010

Tal como Elias Bonfim, protagonista de Os livros que devoraram o meu pai, Afonso Cruz acredita que não somos feitos de «a-dê-enes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros», mas sim de histórias. A biologia é importante, claro, mas é a literatura que lhe dá um sentido. E se o primado do literário já regulava a ordem narrativa do livro anterior (Enciclopédia de Estória Universal, 2009), perdura de forma ainda mais explícita nesta engenhosa novela juvenil.
Quando faz 12 anos, Elias Bonfim recebe da avó não apenas a chave do sótão onde está fechada a biblioteca do pai, Vivaldo, mas também a verdade sobre o seu desaparecimento. Funcionário de uma repartição de finanças, ele não morreu de enfarte, como sempre lhe haviam dito. Leitor compulsivo, entrou foi dentro de um livro de onde nunca mais saiu. E é por esse mesmo livro-porta, A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells, que o filho, nascido órfão, penetra no labirinto da literatura à procura do progenitor, qual Telémaco seguindo a trajectória paterna (com um cão chamado Argos e tudo), não de ilha em ilha, mas de livro em livro. As pistas, encontra-as Elias em obras e personagens de Stevenson, Dostoievski e Ray Bradbury. Pelo caminho, o rapaz aprende muita coisa – incluindo o significado de palavras difíceis, como «hirsutismo» e «anagnosta» –, mas sobretudo confronta-se com personagens que são paradigmas negativos do género humano, seja por incapacidade de distinguir o bem do mal (Mr. Hyde), seja por não saberem lidar com a sua consciência (Raskolnikov).
O fundo moral desta narrativa iniciática cumpre-se depois na história paralela (a da vida real), em que um colega de escola obeso (Bombo), inventor de parábolas orientais, acaba por ser vítima do «lado escuro» de Elias. A articulação entre estes dois planos do livro, porém, está longe de ser satisfatória. É mesmo o seu calcanhar de Aquiles. Demasiado brusca e simplista, a tragédia de Bombo é a mera demonstração a traço grosso do que a aventura livresca de Elias sugere em filigrana. E torna-se, à sua maneira, o equivalente da raiz descrita na página 87: a parte da árvore que «a impede de voar como os pássaros».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “No labirinto da literatura”

  1. Esta semana (29.05.2010) « Rascunhos on Maio 30th, 2010 11:31

    […] – Os Livros que Devoraram o meu pai – Afonso Cruz (Bibliotecário de Babel) […]

  2. Afonso Cruz no Brasil | Bibliotecário de Babel on Junho 21st, 2010 22:48

    […] A LeYa Brasil vai editar em breve a novela juvenil Os Livros que Devoraram o Meu Pai, de Afonso Cruz, sobre a qual escrevi aqui. […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges