No mundo das duas luas

1Q84 – Livro 1
Autor: Haruki Murakami
Título original: 1Q84
Tradução: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 487
ISBN: 978-972-46-2053-4
Ano de publicação: 2011

O primeiro volume de 1Q84, o complexo e gigantesco romance de Haruki Murakami (composto por três livros que já venderam milhões de exemplares no Japão e ameaçam tornar-se a versão 2011-2012 do fenómeno Stieg Larsson), começa numa auto-estrada engarrafada de Tóquio, em 1984. Dentro de um táxi, Aomame desespera com a quase certeza de chegar atrasada a um importante encontro. Na sofisticadíssima aparelhagem do automóvel ouvem-se os compassos agrestes da Sinfonietta, de Janacek, e a música provoca na jovem uma «sensação estranha», equivalente a uma «torção interna». Às tantas, o motorista sugere que ela pode descer por umas escadas de emergência com ligação ao solo e depois apanhar um comboio na estação mais próxima. Aomame aceita a ideia, depois de ouvir o taxista alertá-la para o facto de as coisas nem sempre serem o que parecem. E não são, de facto. Chegada ao nível da rua, Aomame já não está em 1984 mas sim em 1Q84 («Q é a letra inicial da expressão ‘question mark’, o signo de qualquer coisa carregada de interrogações»). Isto é, uma realidade paralela e quase igual, à excepção de ligeiras diferenças. Um mundo, por exemplo, em que os uniformes e o armamento da polícia sofreram uma súbita melhoria. E em que há duas luas, em vez de uma só. A normal continua no seu sítio, mas a seu lado surgiu uma outra, mais pequena e verde («como se estivesse coberta por uma fina camada de musgo»).
É neste território de «estranheza subtil» que Murakami se sente como peixe na água. À semelhança de outros romances deste autor, a narrativa alterna entre duas histórias independentes que se vão aproximando pouco a pouco, à medida que se vislumbram nexos entre as respectivas personagens e enredos. Uma das histórias tem como protagonista Aomame, a rapariga que desceu as escadas para um outro mundo, na verdade uma assassina profissional, a mando de uma velha senhora que elimina homens que maltratam as mulheres (nem de propósito, um tema recorrente nos livros de Larsson). A outra história gira em torno de Tengo, professor de matemática com aspirações literárias, instigado pelo seu editor a reescrever um romance com enorme potencial, mas estilisticamente fraco, enviado para um concurso de primeiras obras por uma estudante de 17 anos. Os elementos fantásticos dessa ficção, sobre um «Povo Pequeno» que emerge da boca de uma cabra cega e morta, podem ser menos irreais do que parecem à primeira vista, acabando por estabelecer uma das pontes entre as duas histórias (juntas, elas formam a crónica lenta de um reencontro deixado nas mãos do acaso).
Murakami gosta de personagens solitárias, alienadas, assombradas por perdas, ausências, memórias traumáticas, vazios interiores. Quase todas as figuras com que deparamos em 1Q84 encaixam neste perfil, escondendo umas das outras os seus segredos «profundos e obscuros». O estilo é neutro, muito preciso nas descrições, quase clínico de tão eficaz, mas não isento de lugares-comuns e passagens menos conseguidas (por exemplo, a dada altura Tengo rumina os «fragmentos» de uma cena «como uma vaca num prado», obtendo «valiosos nutrientes que alimentavam a sua imaginação»). Ainda assim, o escritor japonês consegue aprisionar com mestria o leitor dentro da lógica alucinada dos seus mundos paralelos, mergulhando-o aos poucos na textura onírica da narrativa.
Na edição original, os dois primeiros livros foram editados em simultâneo e só o terceiro, que é uma espécie de prolongamento, mais tarde. Ao publicar o Livro 1 de forma isolada, a Casa das Letras fez uma pequena maldade ao seus leitores, porque as histórias ficam em suspenso e o Livro 2 tem edição prevista apenas para Março de 2012.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

5 Responses to “No mundo das duas luas”

  1. csd on Novembro 27th, 2011 19:27

    Acabei há pouco mais de duas semanas o”kafka à beira-mar”. Gostei, embora haja outros que me arrebatam mais. No entanto, tenciono ler mais livros dele. é sem dúvida um autor a explorar…

  2. Gerana Damulakis on Novembro 27th, 2011 20:51

    Sou fanática pela literatura de Murakami. Não vejo a hora de ter entre as mãos o novo livro. Caso não consiga esperar, acabarei comprando em espanhol,mas é muito ruim ler em língua que não seja a nossa. Em outras palavras: “Minha pátria é a língua portuguesa”.

  3. Ricardo Assis on Novembro 28th, 2011 19:07

    Por alguma razão os dois primeiros volumes foram publicados ao mesmo tempo. Publicá-los separadamente foi uma ideia infeliz e parvinha da Casa das Letras.
    Gosto de alguns livros do Murakami, gostei deste, mas avaliar só este Livro I separadamente parece-me difícil.
    Não sou um grande fã de Kafka á beira-mar curiosamente. Muita gente tem verdadeira adoração pelo livro mas eu confesso que esperava tanto que me decepcionei quando o li. Não que o ache um mau livro, acho-o um livro razoável.
    Há livros do Murakami que acho bem fraquinhos. Outros são interessantes, como o Sputnick Meu Amor. Mas os livros do autor que realmente gostei muito foram Crónica do Pássaro de Corda e Norwegian Wood.

  4. rui on Novembro 30th, 2011 14:52

    Assim a editora factura a dobrar, ou quase…

  5. Esta semana « Rascunhos on Dezembro 5th, 2011 1:01

    […] – 1Q84 – Livro 1 – Haruki Murakami (Bibliotecário de Babel) […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges