No terraço de Antímio

Não Há Vozes Não Há Prantos
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-972-27-2066-3
Ano de publicação: 2012

Embora Mário de Carvalho situe esta peça em um acto «numa cidade indeterminada de um tempo indeterminado, de uma vaga antiguidade, porventura oriental», é natural que a imaginemos numa qualquer província romana, pouco antes da queda do império (como fez Maria do Céu Guerra na sua recente encenação do texto, no teatro d’A Barraca). Mais do que uma comédia de enganos, esta é uma comédia de não-ditos e hipocrisias, em que toda a gente adequa milimetricamente o seu discurso a circunstâncias pessoais e políticas sempre em mutação.
Um pequeno conclave de «súbditos cumpridores» está reunido no terraço de Antímio, a meio caminho entre o palácio do imperador Ariman, no alto da colina, e a cidade que se derrama «como uma escorrência de lixeira», olhada de cima e «com desdém». Tanto Antímio como Rópico, e as respectivas esposas, querem preservar a sua posição na escala social e não se poupam a alfinetadas mútuas (mais subtis as deles; mais ostensivas, as delas). Única voz dissonante, Filates não perdoa ao imperador a morte do seu pai (o general Crátilo) e cedo lembra que «as palavras, uma vez proferidas, não podem ser mudadas», tal como o vinho não volta para a ânfora – uma verdade que os seus comparsas fingem ignorar.
Com estes elementos mínimos, constrói Mário de Carvalho um estudo precioso sobre a miséria moral de que se alimentam, desde sempre, as tiranias. No fim, ao destruir a «quarta parede», implicando os espectadores («Vós não sois assim! Nem viveis perto de gente como esta. Nem conheceis, sequer, alguém semelhante!»), o jogo irónico é levado ao limite, tornando evidente que aquele terraço da «vaga antiguidade» é afinal de todos os tempos – e também, fatalmente, do nosso.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges