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O abismo da solidão

repentino_pensamento

Um Repentino Pensamento Libertador
Autor: Kjell Askildsen
Título original: En plutselig frigjørende tanke
Tradução: Mário Semião
Editora: Ahab
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-989-96340-6-0
Ano de publicação: 2010

Depois de nos ter revelado Dag Solstad, mais a sua história do colapso de um professor de liceu em Oslo, com Ibsen ao fundo (Pudor e Dignidade), a editora Ahab dá a conhecer aos leitores portugueses alguns dos melhores contos de Kjell Askildsen, numa belíssima antologia intitulada Um Repentino Pensamento Libertador. Uma pergunta impõe-se desde logo: como é que ninguém publicou antes em Portugal um autor desta magnitude, sem dúvida um dos maiores escritores vivos da Noruega (e de toda a Escandinávia), enquanto pululam pelas livrarias toda a sorte de policiais suecos, muitos deles meros sucedâneos de Stieg Larsson? A pergunta é retórica, claro.
Logo no primeiro conto, Crias de gaivota, estabelece-se um tom que há-de perdurar nas histórias que se seguem. Durante um passeio de barco à vela, dois amantes desmontam a estranheza da sua oblíqua relação amorosa e o pânico de um dia sentirem que não «viveram verdadeiramente», enquanto a paisagem da ilha onde atracam se incendeia, materializando em chamas a violência das emoções que afloram no diálogo mas nunca chegam a ser ditas.
As personagens de Askildsen são figuras à beira do abismo da solidão, mais cínicas do que desesperadas, mais niilistas («Não acredito que haja um propósito em seja o que for», diz uma delas) do que sentimentais. A incomunicabilidade entre homens e mulheres, entre pais e filhos, entre velhos desiludidos e o mundo, atravessa todas as narrativas e torna-as quase irrespiráveis. Por vezes, a tensão resolve-se em conflito aberto (veja-se Ingrid Langbakke, uma obra-prima que merecia ser filmada por Ingmar Bergman); outras vezes, fica a pairar num silêncio cortante; outras ainda, desfaz-se numa melancolia que magoa.
À edição da Ahab, muito cuidada como sempre, faltou apenas datar os 13 textos, escritos em diferentes fases da obra de Askildsen, e precisar a sua origem – o que permitiria perceber melhor de que forma foi evoluindo, no tempo, o estilo rigoroso e a mestria narrativa deste autor.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 95 da revista Ler]



Comentários

3 Responses to “O abismo da solidão”

  1. RC on Dezembro 17th, 2010 10:59

    Completamente de acordo, Zé Mário. Faltam as datas dos contos. Mas percebe-se que foram organizados cronologicamente, pela imaturidade dos primeiros e pelo cariz oposto dos últimos. A partir de “A Noite de Mardon”, o estilo está consolidado e maduro, na minha opinião.

    De resto, dizer-me que é para mim o livro do ano. Aliás, conto relê-lo em breve.

    • RC on Dezembro 17th, 2010 11:08

      (“dizer” e não “dizer-me”)

      • Listas 2010 | Bibliotecário de Babel on Janeiro 4th, 2011 1:22

        [...] Um Repentino Pensamento Libertador, de Kjell Askildsen, Ahab [...]

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        «Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges