O adeus a todas as coisas belas

Um caçador de leões
Autor: Olivier Rolin
Título original: Un chasseur de lions
Tradução: Tiago França
Editora: Sextante
N.º de páginas: 198
ISBN: 978-989-8093-95-0
Ano de publicação: 2009

Na génese deste magnífico romance está um golpe do acaso. Ao visitar o Museu de Arte de São Paulo, Olivier Rolin deparou pela primeira vez com o Retrato do Senhor Pertuiset, Caçador de Leões (1881), no qual Edouard Manet imortaliza um «pacóvio» de olhar inexpressivo e «farto bigode de morsa». Diante do quadro, o escritor lembra-se de já ter visto aquele homem grosseiro e recupera-o de um «obscuro recanto» da memória onde o sepultara, 25 anos antes, depois de ler a história da sua «rocambolesca» expedição à Terra do Fogo, num livrinho (Pequena História Austral) comprado em Punta Arenas, nas margens do Estreito de Magalhães.
À atracção pela invulgar personagem, junta-se uma perplexidade: a de saber como é que o percurso de Pertuiset se cruzou com o do sofisticado Manet (esse artista revolucionário que vivia como um burguês); ou melhor, a de saber como terá acontecido esta amizade entre tipos humanos diametralmente opostos. «É uma das poéticas consequências do tempo que passa: as testemunhas morrem, depois morrem os que ouviram contar as histórias, faz-se silêncio, as vidas desaparecem no esquecimento, o pouco que não se perde torna-se romance.» Eis a ficção a beber na realidade, a literatura como operação de resgate (nada contra).
Rolin começa justamente por resgatar Eugène Pertuiset: mitómano compulsivo, fanfarrão, caçador desastrado, traficante de armas, inventor de «balas explosíveis», mestre em fogos-de-artifício e crente nos poderes da sua própria «força magnética». Ele é o típico arrivista, ansioso por chegar às altas esferas políticas; o aventureiro irresponsável que se intromete nos conflitos militares do Peru e do Chile; o aldrabão aldrabado que acredita na existência de um tesouro inca, por desenterrar, na Terra do Fogo. O escritor segue-lhe os passos, descobrindo histórias picarescas nas bibliotecas da América do Sul e nunca escondendo um fascínio similar ao que Pertuiset decerto provocou em Manet — cujos dilemas artísticos e andanças pelos boulevards também acompanhamos, em paralelo, tendo a História francesa (final do séc. XIX) como pano de fundo. E como são admiráveis, essas páginas em que se evoca o cerco de Paris pelos prussianos (1870), os dias da Comuna e a «semana sangrenta».
Além destas duas linhas narrativas principais (servidas por uma escrita poderosamente visual, descritiva, cheia de cores e contornos, sempre à beira de se tornar pintura), há uma terceira: a do narrador/autor que interrompe (com judiciosos parêntesis curvos e rectos) o fluxo do romance, relatando a sua deambulação pelos lugares onde se deram os triunfos e as tragédias de Pertuiset e Manet, para confirmar o trabalho demolidor que o tempo exerce sobre as coisas, os homens e a sua memória, seja nos confins do mundo (Valparaiso, Porvenir), seja nas ruas parisienses onde os cabarés e outros antros de boémia foram substituídos por sucursais bancárias, armazéns de calçado e lojas de quinquilharia.
Atravessando este cafarnaum, que só por milagre nunca se torna confuso, há um sopro proustiano. Rolin vai atrás do tempo perdido. O do modelo, o do pintor e o seu. Fixa o «adeus a todas as coisas belas» (Villiers), segue o rasto do que se dissipou, sabendo que esta é «a única caça onde se tem a certeza de acabar morto pela fera, a única exploração onde se termina sempre entre os dentes dos antropófagos».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “O adeus a todas as coisas belas”

  1. Dulce on Dezembro 4th, 2009 9:45

    Olivier Rolin é um grande escritor e “Porto Sudão” é inesquecível. Se ainda não leu, ponha-o numa das pilhas… :)

  2. Listas | Bibliotecário de Babel on Janeiro 1st, 2010 21:11

    […] Um Caçador de Leões, de Olivier Rolin, Sextante […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges