O afegão intranquilo

Tudo começa com uma espera. Uma espera que parece infinita, beckettiana. Encostado ao parapeito de uma ponte, Dastaguir, um velho exausto, sujo e com o turbante desfeito, aguarda a passagem de um carro que o leve até Karkar, a mina de carvão onde o filho, Mourad, trabalha há quatro anos. A seu lado, Yassin, o neto, ora brinca ora faz birra: tem fome, quer água. As horas passam; a boleia não chega. Perto, numa guarita minúscula, há um guarda mal-disposto e facilmente irritável, um homem fechado na sua própria solidão. Mais à frente, numa lojeca manhosa, em contraponto, um comerciante gentil capaz de romper, sem forçar, o círculo de arame farpado que é o silêncio de Dastaguir. O círculo da sua mágoa.
Temos portanto um velho, uma criança, dois homens. E mais nada. À volta, só montanhas áridas, poeira, vento, pedras negras, urtigas. O Afeganistão em meados dos anos 80. Sobre a ponte velha passa um camião com uma estrela vermelha na porta. Saberemos mais tarde que os soviéticos arrasaram uma aldeia. Mas, fora isso, podia ser o Afeganistão de há muitos séculos. Podia ser o Afeganistão de hoje.
Enquanto olha para a estrada, naquela ponte inútil que atravessa um rio que secou de vez (querem melhor metáfora do país?), o velho masca naswar, uma espécie de tabaco com propriedades narcóticas, de cor esverdeada. Masca e cospe. Masca e cospe. Masca e ralha com o neto. Espera e afunda-se em sonhos breves, delírios que o levam aos poços da memória e às portas do inferno. E o pior não é a espera. O pior é o que tem para dizer quando, na mina, o filho lhe perguntar: «– Pai, o que te trouxe aqui?»
O que o trouxe ali, o motivo da viagem, é só um. Contar-lhe que os russos bombardearam a aldeia e toda a gente morreu. A mãe, a mulher, o irmão, os amigos, todos foram mortos. A aldeia está em ruínas e toda a gente morta. Menos eles, Dastaguir e Yassin. O velho sofre por antecipação. Como é que se partilha uma dor tão grande? E como é que se explica que Yassin está vivo mas ensurdeceu, por causa das detonações? Para o rapaz, o mundo é mudo desde o dia em que os tanques «substituíram as vozes das pessoas e foram-se embora». Já nem o avô, quando lhe ralha, consegue ouvir. «Os homens perderam a voz», diz Yassin. «O mundo tornou-se silencioso… Mas, nesse caso, porque mexem os homens os lábios?»
Quando um camião passa, finalmente, só Dastaguir segue viagem até à mina. Pelo caminho, o velho há-de apoquentar-se por ter deixado o neto aos cuidados do comerciante, um homem gentil mas que acabou de conhecer. Na estrada poeirenta, descerá de novo aos abismos do sonho e da memória. Chegará ao seu destino e ao desfecho da narrativa, um final em aberto – talvez para que os leitores o resolvam. A mina é, literal e simbolicamente, um buraco negro. Engole tudo, incluindo o próprio Mourad. O ar é denso e o velho perde as poucas forças que lhe restavam. Surge um contramestre sinistro, montanha de força, hipocrisia e poder. O velho resiste-lhe e hesita, até ao limite, sobre o que dizer a Mourad. Não será melhor, para ele, a ignorância? Dastaguir transporta a verdade junto ao peito, como um punhal. E a tragédia é essa: tem que o espetar no coração do filho, mas não sabe como.

Terra e Cinzas. É este o título do livro que narra a viagem de Dastaguir ao mais fundo de um país em colapso, esse Afeganistão que nos fazem crer que foi sempre – e não foi – uma geografia de caos e ruínas. Escreveu-o Atiq Rahimi, um afegão de 39 anos, exilado em França desde 1985. Publicou-o por estes dias, em português (a partir da tradução francesa de Sabrina Nouri, que decifrou as subtilezas da língua persa), a Teorema, uma editora com um enorme sentido de oportunidade. Ou será de oportunismo? Se não fosse Bin Laden e o mullah Omar, se não fosse a guerra e as reportagens em directo de Cabul, se não fosse esta curiosidade mórbida por tudo o que se passa naquela calcinada waste land, o que aconteceria a este livrinho precioso? Estaria agora na banca das novidades, em todas as livrarias?
Rahimi, o autor, exilou-se aos 22 anos, para fugir ao alistamento no exército pró-soviético, à censura recorrente e ao inferno da guerra. Filho do governador de Pandjshir, teve uma infância dourada. Chegada a altura, pôde escolher o objecto dos seus estudos universitários: literatura e cinema. Pelos vistos, não os desperdiçou. Além de um segundo romance, As Mil Casas do Sonho e do Terror, que será publicado na próxima primavera (na editora francesa P.O.L), assinou já diversos documentários. Tem os olhos claros, barba bem aparada, um ar sofisticado. Gosta de dizer que escolheu a França como lugar de exílio porque admira Victor Hugo e Serge Gainsbourg. Ainda não é um grande escritor, mas pode vir a ser. Neste livro, por exemplo, há coisas que não me convencem: o excesso de pontos de exclamação; o narrador omnisciente que trata as personagens por tu; a escatologia de certos sonhos; algumas facilidades de linguagem (atribuíveis porventura à tradução); e o tom demasiado solene do comerciante «sábio».
Tudo o resto é brutal, belo, surpreendente. Yassin, a criança filha da guerra, surda num mundo que se calou, é a imagem perfeita de um povo martirizado. Neste livro não há soldados (nem sequer os russos), não há mujahedines, não há talibans, não há guerrilheiros da Aliança do Norte, não há homens barbudos a sucederem a outros homens barbudos numa espiral de despotismo, barbárie e destruição. Não há bombardeamentos de aviões americanos, nem marines a levantarem pedras, armados até aos dentes. Não há, sequer, uma rajada de Kalashnikov que alguém dispara ao fim do dia, na cidade mais próxima. E no entanto, tudo isso, as histórias que vieram depois, já estão aqui, nestas páginas, a germinar. Durante a ocupação soviética, o Afeganistão transformou-se num imenso cemitério, onde «os homens perderam toda a dignidade» e «os mortos são mais felizes do que os vivos». Nessa época, talvez ainda houvesse esperança, apesar de tudo, no meio dos destroços. Hoje, nem isso há.
Quando pouso o livro, acendo a televisão. A CNN mostra pela enésima vez as mesmas imagens. Homens de turbante desfeito, arrastando-se na lama. Crianças de olhos perdidos. A voz off não fala deles, claro. Fala de consensos políticos em Cabul e de movimentos das tropas americanas. Reparo num velho muito velho, tão velho como Dastaguir. Pela mão, leva uma criança que podia ser Yassin. A cena é muito triste. O que terá ele para contar ao filho?

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]



Comentários

2 Responses to “O afegão intranquilo”

  1. Marcelo Teixeira on Outubro 8th, 2012 11:34

    O Atiq Rahimi é uma das grandes descobertas dos últimos anos. E este livro, infinitamente belo e triste, é uma pequena obra-prima.

    m

  2. André on Outubro 8th, 2012 21:28

    Continuo a embirrar um bocado com as traduções-de-traduções… é assim como tirar uma fotocópia de uma fotocópia. Nunca fica bom.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges