O caçador de memórias

Os Desaparecidos – À procura de seis em seis milhões
Autor: Daniel Mendelsohn
Título original: The Lost – A Search for Six of Six Million
Tradutor: Margarida Santiago
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 549
ISBN: 978-972-20-3864-5
Ano de publicação: 2009

Quando era criança e visitava a casa do avô materno, em Miami Beach, Daniel Mendelsohn costumava provocar um estranho efeito nos seus parentes mais idosos. Ao vê-lo entrar numa sala, as velhas judias – com os seus grossos óculos de plástico preto, os brincos de «vidro pálido», os colares de muitas voltas e as longas unhas pintadas com verniz vermelho – punham-se logo a chorar e trocavam, inconsoláveis, vagos murmúrios em iídiche. Na origem desta reacção estava a enorme parecença física entre o pequeno Daniel e o seu tio-avô, Shmiel Jäger, que desaparecera com a mulher, Ester, e as quatro filhas durante a II Guerra Mundial, assassinados pelos alemães em Bolechow, uma pequena cidade então polaca (hoje parte do território ucraniano) onde os Jäger viviam há mais de três séculos.
Talvez marcado por esta herança fisionómica, Mendelsohn começou cedo a investir o seu tempo no esclarecimento da história familiar. Ainda adolescente, analisava fotografias antigas, desenhava mapas e árvores genealógicas, criava fichas detalhadas, organizava arquivos e escrevia cartas, cheias de perguntas insistentes sobre o passado, a quem o pudesse esclarecer. Sem surpresa, o epicentro deste trabalho estava em Shmiel, na mulher e nas filhas, «precisamente porque não sabíamos quase nada acerca dele, acerca deles». À volta dos desaparecidos no grande horror do Holocausto criara-se um silêncio difícil de quebrar, uma espécie de interdito. Mendelsohn sabia que tinham sido «mortos pelos nazis» mas a explicação era insuficiente. Como, quando e em que circunstâncias? A resposta a estas perguntas tornou-se uma obsessão que invadiu a sua vida adulta, em simultâneo e em paralelo com as actividades académicas (é doutorado em Literatura Clássica pela Universidade de Princeton), o percurso de crítico literário (colabora regularmente com a New York Review of Books) e vários projectos editoriais (ensaios eruditos; a tradução para inglês da poesia completa de Cavafy).
Em Os Desaparecidos, Mendelsohn narra minuciosamente esta obsessão que o levou a viajar pelo mundo durante anos (da Austrália a Israel, de Viena a Riga, de Praga a Copenhaga) em busca de sobreviventes de Bolechow que lhe pudessem contar qualquer pormenor, ínfimo que fosse, relativo àqueles seis judeus concretos – seis judeus devorados pela História mas nunca reduzidos, pelo seu descendente, a uma mera metonímia dos outros seis milhões de vítimas de um dos maiores crimes colectivos alguma vez perpetrados. Pouco a pouco, com persistência e astúcia, lutando contra um abismo temporal de seis décadas (essa «fenda que se abriu entre o acontecimento e o seu relato, um vazio onde tanta coisa caiu»), Mendelsohn consegue resgatar, in extremis, «pontas de informação» minúsculas e nalguns casos contraditórias que o levam, através de um labirinto de suposições, falsas pistas, coincidências, enganos e golpes de sorte, até uma narrativa plausível do que se terá passado em Bolechow, nos dias do terror, da solidariedade heróica e da traição mais vil.
Com uma estrutura complexa, em que se articulam subtilmente vários planos (entre os quais a história do próprio livro em construção e a vida do autor enquanto o escrevia), Os Desaparecidos é também um ensaio sobre a dificuldade de narrar acontecimentos trágicos. Embora conheça melhor a Odisseia do que a Tora, é nas principais narrativas do livro do Génesis (a cuja exegese se entrega com um empenho por vezes exasperante) que Mendelsohn procura um modelo capaz de fazer a ponte entre a realidade brutal que foi exumando e a tradição judaica.
Em última análise, esta obra merece ser recordada como um dos mais brilhantes e pungentes relatos sobre a importância de preservar a memória de um tempo – mesmo se escassa, mesmo se frágil – antes que esta se perca definitivamente, à medida que morrem as suas últimas testemunhas.

Avaliação: 9/10

[Versão ligeiramente aumentada do texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “O caçador de memórias”

  1. Victor Afonso on Setembro 1st, 2009 22:16

    Quero muito ler este livro!

  2. Maria Almira Soares on Setembro 2nd, 2009 10:02

    A propósito desses «dias do terror, da solidariedade heróica e da traição mais vil», gostaria muito de ver Os Diários de Victor Klemperer traduzidos para português (de Portugal).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges