O caminho que interessa

A primeira vez que soube da existência de Remainder, romance de estreia de Tom McCarthy (n. 1969), foi num ensaio de Zadie Smith, intitulado Two Directions for the Novel (incluído no livro Changing My Mind: occasional essays, Penguin, 2009). Nesse texto, Smith confronta dois romances que ela considera estarem nos antípodas um do outro: Remainder e Netherland, de Joseph O’Neill (Bertrand). Se este é um exemplo perfeito da tendência dominante na ficção anglófona contemporânea – o «realismo lírico» que acredita no «poder encantatório da linguagem» para revelar a «verdade» (numa linha que vem desde Flaubert e Balzac) –, o segundo é uma espécie de recusa militante dessa fé na literatura como instrumento capaz de «descrever o mundo com alguma exactidão» ou sentido de transcendência. Artista conceptual, além de escritor, McCarthy está claramente do lado dos vanguardistas (Robbe-Grillet, Georges Perec, John Barth, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, entre outros). Se Remainder não chega ao ponto de assassinar o romance psicológico, mais os seus códigos artificiais, ele representa um forte abanão, que devia ser capaz de arrancar este género literário à sua actual complacência, resume Smith.
Lembro-me de rabiscar mentalmente uma nota: «ler Remainder, com carácter de urgência.» Queria verificar, por mim mesmo, a anunciada «desconstrução construtiva» dos paradigmas gastos. Mas entretanto outras urgências se interpuseram, como é costume, e a nota mental perdeu-se no labirinto caótico das minhas sinapses. Até que há cerca de um ano voltei a tropeçar em Tom McCarthy, então finalista do Man Booker Prize com C (Presença), magnífico romance sobre um homem, Serge Carrefax, que atravessa como um fantasma as grandes convulsões científicas, sociais e políticas do início do séc. XX. É um ser puramente reflexivo, amoral, obstinado em descobrir, no tecido complexo do mundo, padrões e códigos que o aproximem da sua identidade. Não muito diferente do narrador de Remainder, o tal livro adiado que acabei por comprar na versão para Kindle, depois de ter perguntado sem sucesso pela edição portuguesa (Estampa) em três livrarias de Lisboa.

Durante uma semana de férias na costa vicentina, conheci finalmente o improvável protagonista do primeiro romance de McCarthy. No fundo, um homem vulgar a quem acontecem coisas invulgares. Um dia, teve um acidente grave: uma coisa caída do céu deixou-o em coma. Sobreviveu, depois recuperou a custo parte da memória e toda a mecânica dos gestos. Quando os responsáveis pelo acidente lhe pagam uma choruda indemnização (oito milhões e meio de libras), sabe que pode fazer o que lhe der na gana. Então, ao ver uma racha na parede, decide-se. Aquela imagem despertou-lhe a recordação esquiva de um prédio onde em tempos terá vivido, num apartamento onde chegava o cheiro de fígado ao lume e as escalas de um pianista. Pela janela, gatos pretos sobre telhas vermelhas e, no pátio, um homem às voltas com a sua motocicleta. A ideia não é apenas resgatar a memória, mas refazer a realidade desse tempo perdido. O dinheiro permite-lhe contratar quem concretize os seus desejos, sem nunca os pôr em causa. Alguém que organiza tudo: a compra de um prédio semelhante, a sua transformação, a escolha e treino de actores que fritam fígado ou tocam piano. Mas isto não chega. Para se sentir vivo, para se sentir «real», o milionário entra numa escalada de obsessão e delírio, com recriações de outros momentos entretanto vividos ou de cenas-limite (um homicídio, o assalto a um banco). Eis a literatura enquanto simulacro total. Um simulacro que consegue ser surpreendentemente mais verdadeiro, na sua absurda objectividade, do que a fiável verosimilhança dos modelos narrativos clássicos.
Na praia menos concorrida da Zambujeira do Mar, houve um momento em que desejei ter oito milhões e meio de libras. Com essa fortuna, poderia encenar meticulosamente aquele minuto em que deitado na areia, com certo vento, certa luz e a presença difusa de uns 15 banhistas (vultos desfocados na orla da visão periférica), murmurei: «Tinhas razão, Zadie. Este livro é genial. E se o romance tem de ir por algum lado, que vá por aqui.»

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “O caminho que interessa”

  1. André Domingues on Dezembro 2nd, 2011 13:34

    Curioso: também eu li uma recensão sobre o “C”, mas fiquei foi desesperado por ler o “Remanescente”, que, com um simples telefonema para a antiga WOOK, consegui reservar o único volume a tempo. E adquiri-lo.

  2. mjl on Dezembro 2nd, 2011 14:39

    e assim se desperta nos outros a vontade de ler um livro difícil de encontrar nas livrarias

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges