O carrossel da memória

Adeus, Até Amanhã
Autor: William Maxwell
Título original: So long, see you tomorrow
Tradução: Miguel Castro Caldas
Editora: Sextante
N.º de páginas: 140
ISBN: 978-989-676-028-1
Ano de publicação: 2010

Mais vale tarde do que nunca. Inexplicavelmente inédito no nosso país, William Maxwell (1908-2000) chega agora aos leitores portugueses com a edição do último – e talvez o melhor – dos seus seis romances: Adeus, Até Amanhã. Maxwell foi o editor de ficção da The New Yorker durante quatro décadas, o que lhe permitiu trabalhar com Vladimir Nabokov, J. D. Salinger, John Updike, Frank O’Connor, Isaac Bashevis Singer, entre outros. Profundo conhecedor dos mecanismos da ficção alheia, ele usou o crivo qualitativo da revista nova-iorquina para a sua própria prosa, cuja beleza, contenção e rigor estilístico saltam à vista desde as primeiras páginas.
Adeus, Até Amanhã parte de um crime de sangue cometido em Lincoln (Illinois) no início dos anos 20. Clarence Smith, rendeiro nos arredores da cidade, mata um vizinho, Lloyd Wilson, que se envolvera amorosamente com a sua mulher. O narrador começa por alternar esta história, cujos detalhes desenterra em recortes dos jornais da época, com a evocação da sua vida na altura, marcada pela morte da mãe – ainda um trauma por resolver no momento em que escreve, meio século mais tarde – e pela relação difícil com o pai, que volta a casar. Mas a razão para pôr o «carrossel» da memória em movimento é outra: a tentativa de emendar um acto errado. Filho do assassino, o melhor amigo, Cletus, abandona a cidade sob o peso do opróbrio que lhe caiu em cima e o narrador, ao reencontrá-lo numa escola de Chicago, anos depois de terem sido «separados por aquele tiro», não o cumprimenta.
Esta cobardia causa-lhe remorsos que só são mitigados com a tentativa de reconstituir o «testemunho que ele [Cletus] nunca foi chamado a fazer». Regressamos então à história do triângulo amoroso fatal, mas contada com os instrumentos da ficção. O narrador imagina-se na pele dos vários intervenientes, incluindo a cadela da família Smith. E traz à luz o que a suposta objectividade dos factos por vezes omite. Isto é, o facto de «as pessoas muitas vezes não terem escolha».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]



Comentários

One Response to “O carrossel da memória”

  1. Carriço on Janeiro 20th, 2011 13:28

    Se já andava com uma vontade imensa de deitar mão a este livro, hoje a coisa agravou-se.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges