O desenho de uma tempestade

50 Poemas
Autor: Tomas Tranströmer
Tradução: Alexandre Pastor
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 144
ISBN: 978-989-641-304-0
Ano de publicação: 2012

Poeta canónico na Escandinávia, traduzido em dezenas de línguas e eterno candidato ao Nobel, Tomas Tranströmer recebeu finalmente, em 2011, o mais importante dos prémios literários. Em Portugal, do grande escritor sueco havia apenas alguns textos incluídos em antologias de poesia nórdica e uns quantos poemas traduzidos na internet. Foi preciso quase um ano para que se colmatasse esta lacuna, com a publicação, pela Relógio d’Água, destes 50 Poemas, traduzidos por Alexandre Pastor.
O livro ilustra quase meio século de produção poética, com textos retirados de 12 livros, sem ordem cronológica. Muito presente está um dos aspectos mais destacados da obra de Tranströmer: a forma como descreve a paisagem e os elementos naturais. Abundam as florestas, as manifestações do Inverno, os cenários de neve e ventania. O poeta é capaz de ler uma borrasca de olhos fechados, de discernir os mínimos sinais do degelo, mas também se pode sentir subitamente «desmascarado pelo esplendor do verão». Agreste, misteriosa, a natureza fascina mas tem um carácter indecifrável – e por isso há lugares ermos que se transformam «numa esfinge».
Quase sempre com uma estrutura simples, reduzida ao essencial, partindo de uma situação do quotidiano, os poemas como que se acendem pela deflagração de imagens fortíssimas. Tranströmer revela uma absoluta mestria no uso dos paradoxos («uma bebida efervescente num copo vazio», o «altifalante que emite silêncio», o «livro que só pode ser lido nas trevas») e sobretudo das metáforas. Certo barco é comparado a «um alaúde enorme sem cordas». Um outro, visto do céu, assemelha-se a um «caroço de azeitona cuspido para o oceano», com uma esteira que é «pálida cicatriz». Há ainda uma «megacidade» crescendo como «uma galáxia em espiral», carruagens do metro que são «catacumbas itinerantes», e colunas de uma igreja a servir de «talas de gesso / à volta do braço partido da fé».
Tranströmer é um poeta muitíssimo atento às mais pequenas vibrações do mundo sensível: a luz que bate num rosto adormecido, tornando mais vívido o sonho que agita os olhos sob as pálpebras; o ruído urbano que atravessa as paredes de uma catedral e invade o súbito silêncio do órgão. As «bonitas sobras da experiência» que dão origem ao poema estão em todo o lado. Podem assumir a forma de um pássaro – um cuco empoleirado no vidoeiro ou o canto do rouxinol, «sonoro e áspero, a afiar a gadanha pálida da abóbada celeste». Pode ser um comboio que se deteve «no meio da campina» às duas da madrugada. Podem ser objectos artísticos: um quinteto de Schubert, uma tela de Turner, um personagem de Gogol, um baixo-relevo do século XVI representando um judeu português explorador no Benim, um retrato de mulher estrangulado por uma moldura dourada.
Muitas das reflexões de Tranströmer revelam um pendor metafísico: o poeta senta-se à «mesa oscilante da humanidade» e aprende que «cada ser humano é uma porta entreaberta / que conduz a um quarto para todos». Com a idade, «encurralado num canto», diminuem as surpresas mas também a capacidade de «carregar» o peso do que «acontece». Pressente-se então, de forma cada vez mais explícita, a sombra da morte, esse destino que todos fingimos ignorar: «Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta / e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida, / e a vida continua. O fato, porém, esse / é cosido em silêncio.» No fundo, esta poesia aspira a mostrar-nos uma imagem abstracta do mundo, sabendo que «a imagem abstracta do mundo é tão impossível de dar como fazer o desenho de uma tempestade».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges