O dever da indignação

Indignai-vos!
Autor: Stéphane Hessel
Título original: Indignez-vous!
Tradução: Paula Centeno
Prefácio: Mário Soares
Editora: Objectiva
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-989-672-076-6
Ano de publicação: 2011
Há muito que não se via uma coisa assim em França. No final do ano passado, quando seria de esperar que o último romance de Michel Houellebecq (La Carte et le Territoire), prémio Goncourt 2010, se instalasse de pedra e cal no topo das tabelas de vendas, ei-lo eclipsado por um livrinho que se transformou num gigantesco fenómeno editorial: em poucos meses, Indignez-vous!, de Stéphane Hessel, vendeu mais de um milhão e meio de exemplares.
Escrito em forma de manifesto, apelando à «insurreição pacífica» dos povos contra as injustiças gritantes do mundo actual, o opúsculo de Hessel parece ter captado por antecipação o zeitgeist de 2011, feito de revoluções populares nos países árabes e de movimentos de protesto nos países europeus sufocados pela crise financeira – como a recente manifestação dos precários em Portugal. Certamente não por acaso, o prefácio à edição portuguesa foi pedido a Mário Soares, que enquanto Presidente da República sempre defendeu o «direito à indignação». No seu grito de alarme, Hessel vai talvez um pouco mais longe, ao sugerir que a indignação, mais do que um direito que nos assiste, impõe-se agora como um dever.
O texto é muito curto (23 páginas) e bastante esquemático, feito de tópicos que nunca chegam a ser desenvolvidos ou analisados em profundidade. Em traços gerais, Hessel advoga um regresso aos princípios e valores da Resistência francesa na II Grande Guerra, a defesa das conquistas sociais ameaçadas, a luta contra o «poder do capital» (que submete e subverte a esfera política, aumentando o fosso entre ricos e pobres), o direito dos palestinianos a um Estado e a obrigação de não nos conformarmos nunca. Em si mesmas, estas ideias são meras constatações, pouco mais do que evidências, mas a autoridade moral de Hessel (um antigo herói de 93 anos, que lutou contra o nazismo, foi torturado pela Gestapo, esteve preso em Buchenwald e foi um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos Humanos) dá-lhe o estatuto da criança que aponta, certeira, para o rei que vai nu.
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]
Comentários
One Response to “O dever da indignação”
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Já o li. Vale a pena. Mas é mesmo curto. Li-o na FNAC e depois tive vergonha e comprei-o
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