O dugongo no jardim

Contos dos Subúrbios
Autor: Shaun Tan
Título original: Tales From Outer Suburbia
Tradução: Maria Lúcia Lima
Editora: Contraponto
N.º de páginas: 96
ISBN: 978-989-666-083-3
Ano de publicação: 2011

Os subúrbios de Perth, na Austrália, onde Shaun Tan (n. 1974) cresceu, não diferem muito dos subúrbios que estamos habituados a ver em filmes americanos: vivendas com garagem, todas iguais ou muito parecidas; relvados impecáveis; cercas; uma atmosfera talvez ilusória de segurança, conforto e normalidade social. É esta a paisagem em que Tan situa as suas 15 histórias, partindo todas elas de um qualquer curto-circuito que permite a irrupção, no quotidiano banal, de elementos narrativos da ordem do fantástico (umas vezes absurdos, outras vezes misteriosos, quase sempre poéticos).
Em Correntes Submersas, um dugongo aparece no quintal de uma família conhecida pelas violentas discussões conjugais. Ninguém compreende como é que um mamífero marinho daquelas dimensões foi ali parar, a quatro quilómetros da praia mais próxima, mas os vizinhos depressa se organizam para salvar o animal, trazendo baldes de água e cobertores ensopados. Quando os especialistas aparecem, com um guindaste no pronto-socorro e uma banheira gigante para o transporte seguro até ao mar, toda a gente julga que a estranha ocorrência será notícia nos telejornais. O dugongo, porém, não aparece em nenhum deles, levando os habitantes do bairro a concluir que «o episódio não devia ser tão extraordinário como tinham pensado». É quando tudo volta ao normal que o prodígio acontece. Na relva, ficou marcado o contorno do bicho. E dentro desse contorno vem deitar-se, olhando para as estrelas, com uma enciclopédia de zoologia marítima na mão, o filho do casal desavindo. Dá-se então uma espécie de epifania que transforma a vida familiar, como se a passagem improvável do dugongo tivesse tocado num ponto sensível e até então oculto da estrutura afectiva daquelas três pessoas, abrindo-lhes uma porta que parecia definitivamente fechada.

Este efeito de transfiguração – provocado por um corpo estranho à ordem natural das coisas – surge na maioria das histórias. Há o mergulhador que volta a casa, com o escafandro a escorrer água e coberto de cracas, como quem regressa do espaço exterior ou da morte. Há a gigantesca «bola de poesia», acumulação de todos os poemas que são escritos «mas que nunca se deixa os outros lerem», objecto formado por milhões de fragmentos avulsos, um aleph de papel, infinitamente poderoso e infinitamente frágil. Há os «pátios interiores» que são uma forma idílica de utopia no espaço de cada família. Há a memória fantasiosa de um avô, dando sentido e transcendência a umas simples alianças de casamento. Há uma rena que leva consigo os objectos preferidos, melancólico avatar das renúncias que nos são impostas e com as quais temos de saber viver. Há uma «Máquina da Amnésia» verdadeiramente eficaz, porque ninguém se lembra dela. E há mísseis intercontinentais montados nas traseiras de cada casa, por ordem do governo, mas que os cidadãos depressa encaminham para outros fins (casota, arrecadação, forno de pizza), esperando que o desprezo pela guerra seja universal: «Afinal de contas, se em países distantes houver famílias que tenham no seu quintal um míssil montado e apontado na nossa direcção, confiamos que também já tenham descoberto melhores usos para lhe dar.»
Ao talento narrativo, Shaun Tan junta um espantoso trabalho de ilustração, com estilos muito diferentes (da gravura japonesa ao pastel, do realismo polaroid ao preto-e-branco expressionista), conseguindo encontrar o registo apropriado para cada história e fazendo de Contos dos Subúrbios um dos livros mais belos editados em Portugal nos últimos anos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “O dugongo no jardim”

  1. ‘The Lost Thing’ (um vislumbre) | Bibliotecário de Babel on Abril 26th, 2011 17:19

    […] Trailer do filme The Lost Thing, vencedor do Oscar para a melhor curta-metragem de animação deste ano, inspirado num livro de Shaun Tan, de quem descobrimos recentemente o fabuloso Contos dos Subúrbios. […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges