O escritor do Terminal 5

Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow
Autor: Alain de Botton
Título original: A Week at the Airport – A Heathrow Diary
Tradução: Manuel Cabral
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 143
ISBN: 978-972-20-4002-0
Ano de publicação: 2011

Em A Arte de Viajar (2002), Alain de Botton reuniu uma série de ensaios sobre a experiência da viagem tal como foi vivida por vários artistas – de Baudelaire a Van Gogh, de Flaubert a Hopper –, quase sempre em irónica sobreposição com as suas próprias deambulações pelo mundo. Uma Semana no Aeroporto, pelo contrário, aborda o que acontece imediatamente antes, ou imediatamente depois, desse tempo suspenso em que nos deslocamos para outra geografia – neste caso dentro da fuselagem de um avião, lá nas alturas da estratosfera.
Convidado pela empresa que gere o aeroporto de Heathrow para ser «escritor-residente» durante uma semana, com acesso a todas as áreas e o compromisso de redigir um livro in loco, numa secretária instalada a meio do novo Terminal 5, de Botton acabou por aceitar a «invulgar oferta», assegurando que lhe deram liberdade total para criticar o que lhe apetecesse. Muito ao seu estilo (bem humorado, elegante, puxando ao erudito), o autor descreve os vários espaços deste paradigma do «não-lugar»: o quarto de hotel com ementas líricas, comparadas provocatoriamente aos haikai de Bashô; as pistas; os hangares; a «sala multifés»; o lounge de luxo; o controlo de segurança; a fábrica de catering (sem janelas); os 17 quilómetros de tapetes rolantes para o transporte de malas; o serviço de imigração; os locais onde os passageiros reencontram a família ou se despedem.
Enquanto reportagem, é um trabalho algo previsível, que não coloca nada em causa. Enquanto trabalho literário, pode dizer-se que não desonra. Fica porém uns bons furos abaixo do que Alain de Botton já fez noutros livros.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges