O funeral da literatura

Dublinesca
Autor: Enrique Vila-Matas
Título original: Dublinesca
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Teorema
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-972-695-951-9
Ano de publicação: 2011

Samuel Riba é um editor à antiga, daqueles que «ainda lêem». Enquanto a sociedade «avança a passos gigantescos para a estupidez», ele está entre os últimos exemplares de uma espécie em vias de extinção — e sabe disso. Resignado, dispõe-se a vender a sua editora mas o negócio não avança. Já a velhice, pelo contrário, trepa por ele acima, voraz, deixando-lhe mazelas físicas e a angústia de não saber lidar com elas. O mundo digital assusta-o, é uma «ameaça», mas também uma fonte de fascínio (fica hipnotizado diante do computador: faz pesquisas no Google, vê vídeos no YouTube). Entre Célia, a companheira que se converteu ao budismo, e os pais muito idosos, incapazes de compreender as suas obsessões literárias, sente-se emparedado. Melhor dito: está num impasse. Até que um sonho premonitório o empurra para Dublin na companhia de três escritores amigos. O que o atrai é Joyce, é o cortejo fúnebre do sexto capítulo de Ulisses (essa «síntese universal»), pretexto para «celebrar as exéquias da galáxia Gutenberg», o ocaso de uma era, o funeral de uma certa ideia da literatura enquanto «arte em perigo».
No seu jeito derivativo, Dublinesca é uma belíssima viagem sentimental com requiem ao fundo, percorrendo um labirinto de referências literárias — sabiamente desconstruídas por Vila-Matas, com a habitual ironia. Imerso numa trama povoada tanto por escritores reais (Brendan Behan ou Paul Auster) como por avatares (Vilém Vok, Nietzky), Riba oferece resistência à sua condição de personagem. Ele «não quer de maneira nenhuma viver dentro de um romance». Mas claro que só dentro de um romance, dentro da própria literatura, é que a sua quixotesca e crepuscular jornada faz sentido.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “O funeral da literatura”

  1. Maninha on Julho 31st, 2011 21:30

    Um belíssimo funeral,

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges