O infinito em verbetes

Enciclopédia da Estória Universal – Recolha de Alexandria
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-989-672-134-3
Ano de publicação: 2012

Nas últimas páginas do primeiro volume da sua Enciclopédia de Estória Universal (Quetzal, 2009), Afonso Cruz acrescentou um comentário às dezenas de entradas, feito por Théophile Morel – apenas mais um entre os muitos escritores fictícios e avatares livrescos que a obra reunia, compondo uma razoável bibliografia imaginária. Explicava Morel que «nada neste livro pode ser considerado um facto objectivo e tudo, ou quase tudo, (…) é pura invenção», um jogo que imita os «esquemas» e «logros» típicos de certos «burlões», como Jorge Luis Borges e Milorad Pavic. Agora, no segundo volume (com o subtítulo Recolha de Alexandria), Morel assina um texto introdutório em que narra a forma como descobriu uma edição da mítica enciclopédia, há mais de quarenta anos, e oferece-nos uma preciosa chave de leitura: «Uma das mais densas entradas desta recolha passeia-se à volta de um prédio que, alegadamente, teria sido capaz de conter, em cada um dos seus apartamentos, cidades inteiras, e, nessas cidades, existiriam outros prédios, também estes capazes de conter apartamentos cheios de cidades. Não sei se o autor – ou autores – desta entrada o fez de propósito, mas esta maneira de colocar o infinito dentro de coisas finitas é precisamente o mecanismo da Enciclopédia
As «coisas finitas» são os verbetes, compostos por citações apócrifas de autores reais e inventados, na sua grande maioria já conhecidos do primeiro volume (Tal Azizi, Ari Caldeira, Masamitsu Ito, Samuel Lieber, Malgorzata Zajac) e também de outras ficções de Afonso Cruz, como os romances A Boneca de Kokoschka (Gunnar Helveg, Agnese Guzman, Moisés Kupka) e O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Wilhelm e Frantiska Möller). À medida que cria vasos comunicantes entre os seus livros, Afonso Cruz vai dando forma a um universo literário em expansão, aparentemente caótico na sua exuberância erudita e omnívora, mas de uma consistência e coesão admiráveis.
O mecanismo da Enciclopédia não se distingue do mecanismo da restante obra, todo ele feito de desdobramentos, ecos, perspectivas multiplicadas. O resto é pura imaginação à solta. Parábolas, histórias exemplares, caricaturas, pastiches, exercícios de ironia. A escrita, muito plástica, adapta-se camaleonicamente à natureza dos episódios, mais solenes ou mais pícaros, mais fantasiosos ou mais líricos. E o humor continua afiadíssimo: «Antigamente os sábios acreditavam que o seu pior inimigo estava dentro deles. Tinham razão, toda a razão, mas agora temos antibióticos. E nos casos mais complicados, cirurgias.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 115 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges