O instrumento da vertigem

Monodrama
Autor: Carlito Azevedo
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 152
ISBN: 978-972-795-297-7
Ano de publicação: 2010
Após um longo silêncio de quase uma década, o poeta carioca Carlito Azevedo, responsável pela revista de poesia luso-brasileira Inimigo Rumor (a atravessar uma fase de hibernação, talvez definitiva), voltou a publicar um livro de inéditos: o magnífico Monodrama, lançado agora pela Cotovia, menos de um ano após a edição original pela 7Letras.
«Nenhum poema / é mais difícil / do que sua época», diz-se a certa altura, e estes poemas absolutamente contemporâneos, corpos em expansão que captam a violência espectral do Rio de Janeiro (uma rapariga coreana a injectar-se junto a um muro, o labor ostracizado dos imigrantes, a energia das multidões, a vigilância electrónica dos bancos, a ameaça do terrorismo, mas também o suave erotismo da pele «olhada / até à / incandescência» em hóteis manhosos), estes poemas absolutamente livres e fragmentários, não sendo mais difíceis do que a sua época, também não são mais fáceis, antes tentam fixar a complexidade fugidia de um «mundo com cara de Goya» e suas «imagens da pura / desconexão».
Tudo se passa numa «espécie / de videostream», a linguagem como instrumento da vertigem, em «fluxos imparáveis» que aceleram e tornam ora mais nítida, ora mais embaciada, a percepção das coisas, seja uma silhueta diante da montra da confeitaria, o caos das discotecas, uma galinha «atada por um / barbante / apodrecido / a um / limoeiro / cintilante / de teias / de aranha», a «veemência de uns espelhos» ou um cachecol florido «a flutuar no céu por alguns segundos».
Depois, no fim do livro, Carlito agiganta-se de vez ao falar da morte da mãe (com Alzheimer), numa extraordinária sequência de poemas intitulada H. (quatro dos quais podem ser lidos aqui), para mim um dos momentos mais altos da poesia em língua portuguesa escrita neste século.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
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