O irlandês incorrigível

O Sonho do Celta
Autor: Mario Vargas Llosa
Título original: El Sueño del Celta
Tradução: Cristina Rodriguez
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 438
ISBN: 978-972-564-919-0
Ano de publicação: 2010

Quando anuncia o Prémio Nobel de Literatura, nem sempre a Academia Sueca prima pela objectividade. O texto curtíssimo lido pelo secretário da Academia costuma ser tão abrangente e vago que se torna quase irrelevante. Isto é, vale tanto para o escritor distinguido como para a maioria dos que o antecederam. Este ano, porém, a justificação dada para a escolha de Mario Vargas Llosa não podia ser mais exacta: o Nobel foi para o escritor peruano «pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas suas imagens incisivas da resistência, revolta e derrota dos indivíduos». Efectivamente, todas as obras essenciais de Llosa encaixam de alguma maneira nesta súmula. E não só as essenciais, também as menores – como este O Sonho do Celta, o mais recente dos seus romances, lançado em Espanha no início de Novembro (cerca de um mês após a euforia do Nobel) e ao qual a frase pronunciada em Estocolmo assenta na perfeição.
Desta vez, a «estrutura de poder» cartografada é o colonialismo do século XIX e as «imagens incisivas» revelam-nos a vida (feita de muitos actos de «resistência»), a «revolta» e a «derrota» de um indivíduo em particular: Sir Roger Casement (1864-1916), homem complexo e contraditório, uma daquelas personagens poliédricas – como o Paul Gauguin de O Paraíso na Outra Esquina; ou o ditador Trujillo de A Festa do Chibo – por quem Llosa se fascina, fazendo depois questão de nos mergulhar também nesse fascínio.
Seguindo de perto a biografia do cônsul britânico que foi enforcado por traição à pátria, deitando a perder o prestígio conquistado nas acções de defesa dos direitos humanos em África e na Amazónia, Llosa não deixa de lado nenhum dos momentos cruciais no percurso de Casement: a morte da mãe quando tinha nove anos (orfandade edipiana que o marcará para sempre); as viagens em África, de início acreditando nas virtudes civilizadoras do colonialismo, depois desiludindo-se, ao constatar a exploração abjecta dos trabalhadores negros nas explorações de borracha e os abusos contra eles cometidos; a descoberta e denúncia de um horror paralelo na América do Sul, à custa dos indígenas da região de Putumayo; e por fim o empenhamento na causa nacionalista irlandesa, que culmina com a participação falhada no levantamento da Páscoa de 1916.
O fio narrativo central acompanha os últimos dias de Casement na prisão de Pentonville, enquanto aguarda que o Conselho de Ministros inglês, órgão do governo para o qual trabalhou anos a fio, se pronuncie sobre um pedido de clemência que ainda o pode salvar da condenação à morte. Nesta espécie de limbo, vai recebendo algumas visitas (advogados, amigos, uma prima, um padre) e recapitulando, em longas e detalhadíssimas analepses, os tais momentos-chave: as deambulações pelo Congo, onde viu o rosto da barbárie (e o descreveu a Joseph Conrad, com os resultados que se conhecem); a luta titânica contra o poder da Peruvian Amazon Company, de Julio C. Arana, que marcava os índios como gado e lhes arrancava orelhas ou a própria vida só por capricho; a angustiada vivência da homossexualidade (que contribuirá para a sua queda, ao ser revelada da forma mais crua nos célebres Black Diaries, ainda hoje objecto de polémica, por haver quem acredite que foram forjados pelos serviços secretos britânicos); o difícil sonho de uma Irlanda independente (o anti-colonialismo levou-o a descobrir o “irlandês incorrigível”, a tender para o radical, que havia dentro de si); e a aproximação à fé católica, acelerada à beira do cadafalso.
O problema é que o livro, apesar das suas mais de 400 páginas, parece sempre apertado, a rebentar pelas costuras, sem espaço para o leitor respirar. Há talvez informação a mais e literatura a menos. Abundam os factos, mas não as frases memoráveis. Mais do que um romance biográfico, O Sonho do Celta é uma biografia romanceada. Bem feita e interessante, sim, mas incapaz de nos arrebatar. E de Llosa, com ou sem Nobel, é sempre isso que se espera.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “O irlandês incorrigível”

  1. Llosa vs. Foucault | Bibliotecário de Babel on Dezembro 2nd, 2010 1:21

    […] intelectual francês, não deixa de ser estranha, se a analisarmos à luz do seu último romance: O Sonho do Celta. É que um problema semelhante se colocava na abordagem à personagem central do livro, Roger […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges