O javali e a orquídea

Casa da Misericórdia
Autor: Joan Margarit
Título original: Casa de Misericòrdia
Tradução: Rita Custódio e Àlex Tarradellas
Editora: OVNI
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-8026-07-1
Ano de publicação: 2009

Num poema intitulado O Procurador de Orquídeas, o catalão Joan Margarit explica que começou «pelo lugar mais sujo da literatura»: nem mais nem menos do que o Mein Kampf, com as «palavras de Hitler, tão vulgares», a revelarem «um poço negro». Seguiu-se um acaso feliz:

Por sorte, choquei com a realidade.
Foi aí que começou a poesia,
nada fácil, sem esperanças.
Eu sempre fiz como o javali,
que busca e, delicado, escolhe e come
o bulbo, chamado
orquis, da orquídea.

Estamos, pois, diante de um autor que assume uma visão pouco lírica da poesia, mais preocupado com as raízes, cheias de terra, do real do que com as flores perfeitas da retórica. «Nada é poético na poesia», diz-se algures neste belo e magoado livro, mas a verdade não é tão simples, porque mesmo nos textos mais duros e desolados, mesmo nos versos com arestas cortantes, o lirismo irrompe, às vezes apenas no contorno de uma imagem surpreendente («dentro de nós, como dentro da música, / rugia o temporal de neve e ferro / que se desata quando a história passa a página») ou na justeza de versos como estes: «Ser velho é a guerra já ter acabado. / Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.»
Além das marcas da História, do frio e fome da infância em contraponto com a miséria de hoje («que nem sabe que é miséria»), os poemas lidam sobretudo com a solidão da idade e com a certeza amarga das ausências: a do pai («Não sei se agora nos entenderíamos, / dois homens velhos, cansados e desiludidos»), mas sobretudo a da filha morta, Joana, fantasma que assombra muitos dos poemas com um rasto de tristeza lancinante — cf. as páginas 19, 29, 37, 47, 65, 81, 83, 89, 93, 103, 109, 113, 123, 129. Eis um deles (o da página 123):

BAGAGEM

Quando vamos de viagem, eu e a tua mãe
fazemos as malas em cima da tua cama.
A roupa bem dobrada, os
necéssaires,
os livros, bilhetes e medicamentos,
espalhados mas em ordem.
Todas as viagens começam aqui,
neste espaçoso quarto íntimo
que pintámos de um fúcsia suave
ao saber que tu nunca mais voltarias.
O quarto ganhou raízes que, pouco a pouco,
se tornam profundas dentro da tua ausência.
Fazemos as malas para um comboio nocturno.

A memória «vai-se desfiando / como as cordas laceradas das barcas / que o temporal levou». É precária, sim, mas é também um esconderijo — como essas Casas da Misericórdia que acolhiam os órfãos da Guerra Civil Espanhola, os filhos dos fuzilados, lugares agrestes mas ainda assim menos agrestes do que a «intempérie». Lugares que Margarit compara à poesia, isso a que nos agarramos quando «não há mais nada», sabendo que «um bom poema, / por mais belo que seja, tem de ser cruel».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “O javali e a orquídea”

  1. Listas 2009 | Bibliotecário de Babel on Janeiro 1st, 2010 21:16

    […] Casa da Misericórdia, de Joan Margarit, OVNI […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges