O ladrão involuntário

solar

Solar
Autor: Ian McEwan
Título original: Solar
Tradução: Ana Falcão Bastos
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 338
ISBN: 978-989-616-359-4
Ano de publicação: 2010

Quando se soube que o novo romance de Ian McEwan, Solar (lançado esta semana em Portugal, quase em simultâneo com a edição inglesa), abordaria uma das maiores preocupações civilizacionais do nosso tempo, muitos admiradores do autor de Expiação torceram o nariz. Fazer boa literatura a partir de tópicos como o aquecimento global e as energias renováveis parecia, à partida, não só uma impossibilidade teórica como uma receita para o desastre. Felizmente, os receios de que McEwan desperdiçasse os seus recursos estilísticos num panfleto ambientalista, ou de que se transformasse no Al Gore das secções de ficção das livrarias, desfizeram-se mais depressa do que leva a dizer «olha, lá se foi mais um glaciar».
E porquê? Porque antes de ser um cidadão preocupado com os desastres ecológicos que podem hipotecar o futuro do planeta, McEwan é um escritor, um grande escritor que sempre mostrou conhecer os meandros mais inacessíveis ou inconfessáveis da natureza humana. O segredo de Solar está no facto de nunca perder de vista que a tragédia global do mundo moderno tem como causa primeira a nossa radical imperfeição. E McEwan expõe-na, a essa imperfeição, da forma literariamente mais eficaz: através do humor e da sátira. A única surpresa talvez resida no facto de se mostrar tão desenvolto e certeiro num registo de comédia que não costuma ser o seu (a descrição de uma viagem ao Círculo Polar Árctico, em que um grupo de artistas empenhadíssimos e cheios de vontade de salvar o mundo se mostram incapazes de manter minimamente arrumada a «sala das botas», é, a esse título, antológica).
O grande trunfo do romance, porém, assume a forma do seu protagonista: Michael Beard, concentrado ambulante de todos os defeitos da espécie. Prémio Nobel da Física aos trinta e poucos anos, viveu a vida toda à sombra desses louros alcançados muito cedo. Depois da Conflação Beard-Einstein (uma descoberta no campo da interacção entre a luz e a matéria que o hifenizou com um génio), o seu trabalho criativo foi nulo e ele limita-se a dar conferências bem pagas, a emprestar o brilho do seu nome a cabeçalhos de cartas e a chefiar centros de investigação com fins mais políticos do que científicos. Na esfera pessoal, contabiliza um corpo a dar as últimas (gordo, baixo, doente), cinco casamentos falhados, um longo rol de infidelidades e conflitos pessoais, além de uma tendência para a hipocrisia e para o egoísmo. Não será um «patife completo» mas anda lá perto, embora ele não se considere «nem mais cruel, nem melhor, nem pior do que a maioria».
Certa vez, numa viagem de comboio, enerva-se com um passageiro que começa a servir-se do seu pacote de batatas fritas. Ele amaldiçoa aquele larápio desavergonhado até se aperceber, tarde demais, que o seu pacote continua no bolso e que foi ele o «ladrão involuntário». De certa maneira, ele é sempre o «ladrão involuntário» de alguém: do estudante de doutoramento que lhe entrega, antes de morrer, a investigação básica para o projecto de «fotossíntese artificial» que mais tarde assumirá como seu; das amantes que esperam dele o que não está disposto a dar-lhes; dos seus amigos, sócios, inimigos; etc.
Beard está no centro de vários círculos narrativos que McEwan alterna ou sobrepõe com a habitual mestria técnica, apoiada numa escrita de extraordinária precisão (uns «sapatos deitados de lado sobre a mesa de café», por exemplo, dizem tudo sobre o estado psicológico de uma personagem). Mais do que o aquecimento global, o tema do romance acaba por ser o aquecimento particular deste homem que atrai para si todas as catástrofes profissionais e afectivas imagináveis. O planeta pode estar em risco, mas Beard não o está menos. E é de Beard, ao acabar o livro, que nos lembraremos. Talvez porque, ao contrário do planeta, ele não pode – ou melhor, não quer – ser salvo.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

6 Responses to “O ladrão involuntário”

  1. henedina on Março 31st, 2010 22:14

    Não gostei. Comprei o livro e li 1/3 no comboio (tinha lido o da ida completamente) ainda não o acabei. Parece aqueles que contam o filme antes de o ler. :( (enganei-me era ver)
    Até ao ponto em que li, Beard é o ártico a descongelar.
    Homem nenhum deve perder o espirito reformista senão transforma-se em Beard no fim do 5º casamento.

    Comprei o livro apesar da capa ser pavorosa e apesar de me parecer um livro que todos vão ler, apoiado em muita publicidade. Mas Ian McEwan conquistou-me com a “Praia de Chesil” que li 2 x.

  2. Maninha on Março 31st, 2010 22:56

    Sou fã de McEwan e vou comprar Solar, assim como comprei todos os outros dele, assim que chegar a Ponta Delgada. A demora só aguça ainda mais a curiosidade :)

  3. Em defesa dos romances cómicos | Bibliotecário de Babel on Abril 3rd, 2010 16:34

    […] Um texto de Erica Wagner, no The Times. Entre os muitos exemplos invocados de boa ficção literária que faz rir está o último romance de Ian McEwan, Solar. […]

  4. henedina on Abril 5th, 2010 21:05

    Acabei de ler Solar e recomendo.

  5. Ricardo on Abril 7th, 2010 13:21

    Caro José Mário Silva,

    Antes de mais, um sincero obrigado pelo Blog e por todo o trabalho a ele associado. Faço parte dos que diariamente por aqui passa e encontro sempre algo de interessante para ler. Manter esse padrão de qualidade e com esta regularidade é realmente obra.

    Concretamente em relação ao Ian McEwan, ainda não li nada dele mas estou muito interessado em fazê-lo. Gostaria de lhe perguntar se acha que Solar é um bom começo ou se recomenda outro livro.

    Muito obrigado desde já

    Ricardo

  6. José Mário Silva on Abril 7th, 2010 15:24

    Ricardo,

    Obrigado pelas suas palavras. Isto dá efectivamente muito trabalho, mas quem corre por gosto, já se sabe.
    Quanto ao ‘Solar’, talvez não seja uma má porta de entrada para o universo de McEwan, embora ‘Expiação’ fosse, parece-me, a opção mais canónica. Com uma ou outra, não dará o seu tempo por mal empregue.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges