O não dito por dito

alguma parte

Em Alguma Parte Alguma
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 123
ISBN: 978-972-568-667-6
Ano de publicação: 2010

Mais de seis décadas após a sua estreia literária, Ferreira Gullar, um dos maiores poetas vivos do Brasil – se não o maior – venceu este ano o Prémio Camões. Mesmo se justíssima, a consagração oficial torna-se quase irrisória ao pé do que verdadeiramente importa aos seus leitores: o regresso à poesia. Onze anos passados sobre o lançamento do anterior livro de inéditos (Muitas Vozes, 1999), surge agora Em Alguma Parte Alguma. A expectativa criada pela longa espera – fruto da lentidão do seu processo criativo – era enorme, talvez excessiva, mas o resultado não defrauda os admiradores de Gullar. Pelo contrário: aos 80 anos, o poeta escreveu uma obra de extraordinária vitalidade, a rebentar de energia, com fôlego imenso, mais próprio de um rapaz na flor da idade do que de um ancião (sendo que a sabedoria e a imensa experiência de vida do ancião se pressentem em cada verso).
Na primeira parte do livro, Gullar entrega-se, de forma sistemática e reiterativa, a uma reflexão sobre os fundamentos essenciais da actividade poética e os limites da linguagem verbal para descrever, ou explicar, a realidade tangível das coisas: «mas / dizer o quê? / dizer / olor de fruta / cheiro de jasmim? // mas / como dizê-lo / se a fala não tem cheiro?» A verdade é que uma palavra nunca corresponde totalmente à coisa que nomeia, porque «a coisa / (o ser) / repousa / fora de toda / fala / ou ordem sintática // e o dito (a / não coisa) é só / gramática». Daí que ao poeta, diante da página em branco, caiba apenas o «aflito silêncio» de quem se esforça, em voz baixa, não por revelar o oculto mas por inventá-lo: «O poema / antes de escrito / antes de ser / é a possibilidade / do que não foi dito / do que está por dizer». Para que a poesia aconteça, o poeta tem então de pôr ordem na desordem e dar «o não dito por dito», única forma de resgatar «o que se nega / à fala / o que escapa / ao acurado apuro / do dizer». Ou seja: «a borra / a sobra / a escória / a incúria / o não caber».
Não se julgue, porém, que esta abordagem do trabalho poético se fica por abstracções. Mesmo nos poemas mais reflexivos, a escrita de Gullar é sempre física, material, seja na descrição do próprio corpo envelhecido (feito de ossos: a cabeça do fémur em atrito com a bacia, mais o perónio que é «a mais dura parte de mim / dura mais do que tudo o que ouço / e penso / mais do que tudo o que invento / e minto»), seja nas várias aproximações à brutalidade impalpável de um aroma de jasmim «no limite do veneno»; na recorrência do «perfume das bananas apodrecendo» na loja fechada do pai, há tantos anos; ou ainda no cheiro a alfazema que «dorme manso nas gavetas de roupas / em São Luís / e reacende o perdido». Do passado chegam emoções difusas e imagens fortes, como a da corola de um «vermelho-queimado» que já não murcha nem atrai abelhas, porque «apenas fulge / em alguma parte alguma / da vida», à espera de ser captada pelo exercício da memória, «essa / antimatéria que pode / num átimo/ reacender o que na matéria / se apagara para sempre».
Quem tenha lido o genial Poema Sujo, de 1975 (editado há poucos meses pela Ulisseia), reconhecerá algumas ideias: por exemplo, a pêra vista como um sistema de açúcar e álcool que se desfaz, ou as diferentes velocidades a que se move uma cidade. Mas se nessa obra torrencial e magnética se tentava reconstituir um lugar e um tempo (os dias da infância em São Luís do Maranhão), evocados no desespero do exílio, aqui o movimento é ao mesmo tempo mais contido e mais amplo. Há talvez menos visceralidade, menos denúncia dos males do mundo (ou do Brasil), mas uma maior consciência de si mesmo na escala cósmica. Entre o fascínio com o gigantismo das galáxias distantes, onde brilham estrelas talvez já mortas, e a contemplação do gato enrodilhado na cadeira, da planta no vaso da sala, de um louva-deus, de uma aranha que vive nas «encardidas páginas» de um dicionário de Filosofia, nascem toda a sorte de maravilhamentos e epifanias.
Depois, a par com esta espécie de panteísmo sem necessidade de Deus, há uma sombra que alastra pelo livro: a da finitude de todas as coisas. «A morte / presença e ocultação / circula luminosa», lembra-nos o poeta. A morte dos outros, esses defuntos que se acomodam «a meu lado/ como numa fotografia». Mas também o seu próprio fim, antecipado sem morbidez: «vinda a morte/ (…) serei o que alguém acaso/ salve/ do olvido». Uma esperança que Gullar, no último poema, projecta na figura de Rainer Maria Rilke: «desfeita a garganta e a mão e a mente/ findo aquele que/ de modo próprio/ dizia a vida/ resta-nos buscá-lo nos poemas/ onde nossa leitura/ de algum modo/ acenderá outra vez sua voz».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges