O olhar do viajante

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Não se Encontra o que se Procura
Autor: Miguel Sousa Tavares
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 266
ISBN: 978-989-724-193-2
Ano de publicação: 2014

O novo livro de Miguel Sousa Tavares é uma miscelânea de textos muito diferentes, quer no tom, quer nas circunstâncias que lhes deram origem. Há de tudo: artigos de fundo, apontamentos breves, diários, esboços biográficos, desabafos, comunicações lidas em encontros literários. Sem surpresa, vemos desfilar tanto as paixões conhecidas (a boa mesa, os amigos, o sul, a caça, os passeios todo-o-terreno, o Brasil, a civilização mediterrânica, o F.C.P.) como os não menos conhecidos ódios de estimação (a nouvelle cuisine, a arte contemporânea, o turismo de massas, os autarcas que destroem o litoral, o ‘apartheid‘ contra os fumadores, as revistas cor-de-rosa, o Facebook).
A escrita é desenvolta e fluida, sobretudo nos textos sobre viagens. Entre outras transumâncias, Sousa Tavares narra a estadia numa ilha croata, onde se isolou para terminar um livro; descreve uma tempestade que «rasga os céus com relâmpagos» sobre o Bósforo; exalta as «construções que levitam sobre a terra ocre» de Brasília (esse «delírio do absoluto no meio do nada»); lembra uma volta pela Sicília, de regresso à «excessiva beleza» de Taormina (com medo de «sair magoado do reencontro», o que não acontece, porque «nada mudou»); deslumbra-se com um voo de helicóptero sobre as cataratas de Victoria Falls; e enche-nos de adrenalina ao explicar a sensação de aterrar no porta-aviões USS Nimitz. Bom observador, atento aos detalhes, mostra mais uma vez que sabe captar uma paisagem, a atmosfera de um lugar, o rasto de quem por lá andou.
É nos diários, a acompanhar as estações do ano, que o escritor se entrega a reflexões mais pessoais sobre a vida do dia-a-dia ou sobre a passagem dos anos, ao mesmo tempo que comenta a actualidade, fixa memórias, vigia o crescimento das buganvílias no pátio da sua casa alentejana, fala dos filhos e dos amores, assinala a génese de alguns livros, e faz um inventário de perdas, desilusões, sustos com a saúde, mas também pequenos júbilos. Num livro com textos de épocas tão díspares – há uma aproximação a Corto Maltese feita em 1995 e uma crónica (aliás, perfeitamente dispensável) sobre Jessica Athayde, escrita no passado mês de Outubro – é difícil compreender porque motivo os mesmos não estão datados. O desleixo editorial estende-se à revisão, que deveria evitar pleonasmos («exausto de cansaço»), entre outros deslizes («um pomar de laranjas», «better red than death», etc.).
Na ânsia de tudo abarcar, Miguel Sousa Tavares tornou o livro desequilibrado. Os perfis sobre escritores (Stevenson, Hemingway, T. E. Lawrence) e os artigos mais extensos, sobre a mudança do século XIX para o XX, ou sobre a «longa traição» dos intelectuais comunistas, pouco acrescentam. São mero lastro. Quanto às meditações do escritor diante do seu ofício, pecam pela insistência numa mesma tecla (a predominância da «história» e das «personagens» sobre tudo o resto), alimentando uma visão conservadora da arte e uma tendência para o lugar-comum.
O que salva o livro da mediania são as muitas evocações da mãe, Sophia. Comovido, Miguel partilha os seus ensinamentos («viajar é olhar», ouviu-lhe ele certa tarde na Piazza Navona, em Roma), o «território da infância» que eram as grutas de Lagos, a estante dela onde só ficavam os livros de que gostava («quase tudo poesia»), uma fotografia tirada na Índia onde aparece «como se flutuasse», e sobretudo uma presença fortíssima que ainda persiste, persistirá sempre, na vida do filho («a tua voz tranquila, as palavras ditas sem desperdício algum, a tua mão desenhando danças sobre o tampo da mesa, o fumo do cigarro perdido no vento que tudo leva, a força, que me ensinaste, de nunca trair, de nunca mentir, de enfrentar mesmo a mais negra escuridão»).

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges