O paralelista

Breves Notas sobre as Ligações (Llansol, Molder e Zambrano)
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-6410-49-0
Ano de publicação: 2009

Sempre houve, na escrita de Gonçalo M. Tavares, mesmo nos romances da tetralogia “O Reino”, um impulso reflexivo muito forte e uma atracção pelos territórios da filosofia. Neste novo título (o 26.º de uma obra proliferante), essa atracção é a própria força motriz do livro, criado sob o signo de três pensadoras: a espanhola María Zambrano, Maria Gabriela Llansol e Maria Filomena Molder, «escritoras cuja leitura exige de nós uma resposta, um movimento paralelo, uma deslocação».
As Breves Notas sobre as Ligações, terceiro volume da série Enciclopédia (sucedendo às Breves Notas sobre Ciência, de 2006, e às Breves Notas sobre o Medo, de 2007), funcionam então literalmente como a «resposta» que a escrita alheia exige. Isto é, no interior de uma estrutura aberta e fluida, o corpo da escrita de Gonçalo M. Tavares – com as suas habituais idiossincrasias, ritmos, silogismos e fixações temáticas – reage quase por instinto a frases escolhidas das três Marias (salvo seja), transformando-as em mote para as suas próprias investigações filosóficas.
Não estamos aqui no domínio da exegese; e muito menos da paráfrase. Tavares não explica, não diz de outra maneira; antes impõe novos sentidos, testa hipóteses, abre caminhos. As ideias dos outros (das outras, neste caso) são apenas combustível para o seu elaborado processo mental, pontos de partida desligados entre si e arrancados aos respectivos contextos, materiais observados a partir de um ponto exterior – suficientemente distante para permitir a perspectiva e a paralaxe, a aproximação e o erro. É este olhar a dois tempos que leva à descoberta de insuspeitos fios soltos e nexos improváveis. Tavares acaba por fazer seu o papel do «paralelista» de Giorgio Manganelli (citado na epígrafe), cujos comentários são tão ilimitados «como ilimitado é o texto» original, esse «labirinto de todos os itinerários possíveis» e «lugar dos ecos».
Dito isto, Breves Notas sobre as Ligações, apesar da sua considerável densidade, lê-se de fio a pavio com uma sensação de leveza (que até resiste às «tabelas literárias», já utilizadas em A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil, de 2004). Talvez porque Tavares, não deixando de explorar com visível gozo paradoxos e oxímoros, nunca perde a precisão cirúrgica que faz dele, a par de Agustina, talvez o melhor aforista português vivo. Exemplo: «Um verso avança como se fosse uma coisa com electrões e desassossego.» Ou: «O pensamento é um acontecimento. Como um desastre ou a aparição estranha de alguém que não te quer deixar regressar ao sítio de onde vieste.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 82 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “O paralelista”

  1. Miguel Filipe M. on Agosto 14th, 2009 0:26

    É o escritor português mais filósofo (no sentido que aqui se lhe atribui) que conheço (de entre os vivos) e poucos como ele há na literatura ocidental. E essa não é uma característica exclusiva das suas investigações expressas, mas sim impressa em cada frase. É exactamente isso o que mais admiro na sua obra: a raríssima capacidade de olhar para as coisas, desarticulando-as, mesmo esquecendo-as para as iluminar de súbito, com uma simplicidade absolutamente desarmante, por vezes assustadoramente violenta, que nos atira para uma «visão» limpa como um murro no estômago. À luz da sua palavra todos somos uma criança que observa o banal e aprende a questionar, deslumbrando-se com um sentido que sempre esteve aí mas que estremece na consciência como uma revelação, com uma clareza e uma precisão fulgurantes. Uma dor, um sorriso ou uma operação quotidiana ganham um significado que não é propriamente novo, porque quando ele no-lo diz percebemos que sempre o soubemos. Mas nunca no-lo tínhamos perguntado. Ele aprendeu a fazê-lo, com o que julgo definir melhor o processo da sua escrita: uma extrema lucidez.

    O melhor escritor «jovem» português. Seguramente o mais internacionalizável também, o que nem sempre ocorre entre os nossos melhores, como é bem o caso do Lobo Antunes. Muito se dirá dele, estou certo. E neste caso com inteira justiça.

  2. Gerana Damulakis on Agosto 15th, 2009 21:27

    Gonçalo M. Tavares: simplesmente grande!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges