O poder solar que há na beleza

Lugares, 3
Autora: Maria Andresen
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-989-641-163-3
Ano de publicação: 2010

Neste terceiro volume de poemas, à semelhança do que acontecia nos anteriores – Lugares (2001) e Livro das Passagens (2006), publicados na mesma editora –, Maria Andresen assume o diálogo com outras artes e a memória desses encontros como pontos de partida da sua poesia. Um dos aspectos mais curiosos do livro é que a écfrase não se restringe desta vez à alta cultura (os quadros de Velázquez e Picasso; os filmes de Dreyer, Max Ophuls ou Straub/Huillet), mas abarca igualmente a música rock (Rolling Stones, Jimi Hendrix).
Mais do que uma descrição, a autora procura o detalhe significativo que dá sentido ao que observa, sem o explicar: «assim a minha prosa clara / – tão rente a quero ao mudo acontecer – / abarque o pormenor e não lhe toque». O pormenor pode ser a boca alegre de Edith Schiele («mas os olhos não») num retrato do seu marido, Egon. Ou «a solidão do poder como um levantamento», entrevista no retrato marcial de Carlos V por Tiziano.
O problema destes poemas está, a meu ver, numa certa margem de opacidade excessiva que existe em todos eles, como se a autora fizesse questão de dinamitar, logo à partida, a mera hipótese de uma partilha total da sua experiência estética com o leitor.
No resto do livro, menos saturado de referências eruditas (embora nos deparemos ainda com duas glosas de Wallace Stevens), a escrita de Maria Andresen como que floresce, aberta ao ímpeto apolíneo de quem acredita no «poder solar que há na beleza». Surgem então comboios obstinados, cães nocturnos, o mar, as dunas, paisagens algarvias, casas violentas, jardins, estrelas e intuições felizes. Como esta: «saberemos do intemporal aquilo que sabe / um cultivador de rosas».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “O poder solar que há na beleza”

  1. ui on Agosto 25th, 2010 0:49

    descobri um blog anglo americano
    com o mesmo título….o conteúdo é ligeiramente diverso

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges