O regicida em segunda mão

Carta a D. Luís sobre as vantagens de ser assassinado
Autor: Fialho de Almeida
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 84
ISBN: 978-972-37-1441-8
Ano de publicação: 2010

Publicados entre 1889 e 1894, os folhetos da série ‘Os Gatos’ foram o instrumento através do qual Fialho de Almeida (1857-1911) quis fazer o exaustivo «inquérito da vida portuguesa», recorrendo à crítica mais impiedosa, assente numa inclinação para a sátira, na verve explosiva, na coragem de chamar os bois pelos nomes e na atitude felina transformada em divisa pessoal: «miando pouco, arranhando sempre, não temendo nunca».
Os dois textos incluídos na presente edição viram a luz em 1889 e são bons exemplos da sua prosa destemida, enérgica, inventiva, desbocada e muitas vezes cruel. Na diatribe que dá título ao volume, assistimos a um exercício de puro sarcasmo, no qual Fialho começa por abordar o tiro que não matou D. Pedro II, no Brasil, para depois sugerir a D. Luís I que abandone o estatuto de único monarca do mundo imune a tentativas de assassinato e «a ignomínia de nunca haver despertado ódio a ninguém». A argumentação é um prodígio de ironia, uma delícia de maldade e veneno, que culmina com o polemista a oferecer-se para ser «regicida em segunda mão», sicário perfeito para um crime apenas simulado, porque «apesar do meu ódio, eu não quero que V.M. morra, porque enfim pode vir outro pior».
Num tom mais contido e descritivo, O Seu Enterro narra, poucos meses mais tarde, a morte por terrível doença do rei e o lento cortejo fúnebre, de Cascais até ao Mosteiro dos Jerónimos, numa noite escuríssima, apenas iluminada pelo «vermelhão» dos archotes — páginas arrebatadoras que estão entre as melhores que se escreveram na literatura portuguesa de finais do século XIX. Quando por fim Lisboa surge ao longe, sob um «difuso rubor» que parece uma «aurora efémera e movediça», Fialho precisa: «É o revérbero do gás d’encontro às nuvens.»
Cronista exímio, anota depois a hipocrisia das cerimónias, os falsos lutos e o abandono por parte dos súbditos («Príncipes e áulicos, grandes e humildes, tudo lhe ultrajou a memória, em vez de venerar-lha»). Sobe então ao trono D. Carlos I, esse sim vítima futura de um regicídio a sério, quando Fialho já definhava no seu retiro alentejano.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “O regicida em segunda mão”

  1. Listas 2010 | Bibliotecário de Babel on Janeiro 4th, 2011 11:54

    […] Carta a D. Luís sobre as vantagens de ser assassinado, de Fialho de Almeida, Assírio & Alvim […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges