O romancista que corre maratonas

Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo
Autor: Haruki Murakami
Título original: Hashiru Koto Ni Tsuite Kataru Toki Ni Boku No Kataru Koto
Tradução: Maria João Lourenço
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 186
ISBN: 978-972-46-1923-1
Ano de publicação: 2009
No final da década de 70, Haruki Murakami geria um clube de jazz perto da estação de Sendagaya, em Tóquio. Foi então que decidiu escrever um romance, ideia que lhe ocorreu enquanto assistia a um jogo de basebol. A maior parte das pessoas que decidem escrever um romance nunca chegam a escrever um romance, mas Murakami, na altura quase a fazer trinta anos, não é como a maior parte das pessoas. E lá escreveu, madrugada fora e à mão, depois de fechar as contas do dia, o seu primeiro livro (Escutem o Canto do Vento, nunca traduzido para português). Seguiu-se um outro (Pinball, 1973), redigido nas mesmas precárias condições, pelo que Murakami decidiu, «contra tudo e contra todos», abandonar os negócios da noite para viver apenas da escrita. Opção arriscada mas acertadíssima, até porque o terceiro romance (Em Busca do Carneiro Selvagem) marcou o início da sua rápida ascensão no meio literário.
Estávamos em 1982. Murakami, para se manter em forma, cortou com o tabaco (fumava três maços por dia) e começou a correr todas as manhãs. De então para cá, mantém uma média semanal de 60 quilómetros e disputa uma maratona por ano. Embora não seja um Carlos Lopes, ou sequer um Toshihiko Seko (para referir um dos melhores fundistas japoneses, com quem por vezes se cruzou), o escritor leva muito a sério a sua actividade desportiva, preparando-se para cada corrida com um regime de treinos rigorosos, aqui e ali complementados com umas sessões de squash e umas provas de triatlo.
É justamente a longa preparação para uma maratona específica (a de Nova Iorque, em Novembro de 2005) que estrutura esta «espécie de livro de memórias», em que Murakami evoca os seus primeiros tempos de escritor, no tal clube perto de Sendagaya, e reúne dezenas de breves «reflexões pessoais sobre a corrida». Ao longo de vários meses, com passagens pela ilha de Kauai (Havai), por Tóquio e Cambridge (Massachusetts), acompanhamos em detalhe as suas rotinas diárias, as suas obsessões e idiossincrasias. Em excessivo detalhe, diga-se. Sobre o desportista, ficamos a saber quase tudo: que aprecia o balouçar dos rabos-de-cavalo das alunas de Harvard, quando estas o deixam para trás nos trilhos junto ao rio Charles; que a música escutada no seu leitor de minidiscos (Lovin’ Spoonful e Red Hot Chili Peppers, mas também Creedence Clearwater Revival e Eric Clapton) o ajuda a manter o ritmo das passadas; que usa sapatilhas Mizuno; que tem o título de uma canção de Bryan Adams (18 Til I Die), sim, Bryan Adams, inscrito na sua bicicleta de titânio; etc. Sobre o escritor, porém, ficamos a saber quase nada.

Murakami na estrada, entre Atenas e Maratona (fotografia de M. Kageyama)
Parte da desilusão que o livro nos provoca nasce desta opacidade, deste exibicionismo um pouco fútil, que se perde em irrelevâncias enfadonhas e faz até da insistência nas próprias limitações – as marcas da idade, o sofrimento físico, o declínio atlético – uma espécie de retorcida glorificação pessoal. Murakami acredita que «escrever romances e correr a maratona são coisas muito parecidas», porque em ambos os casos é necessária «uma motivação interior, uma força calma que não precisa de aprovação nem de ser validada através de critérios exteriores». A analogia é legítima, claro, mas Murakami nunca a aprofunda, ficando-se por generalidades, pensamentos soltos, aforismos descosidos, frases de efeito fácil. Às tantas, por exemplo, afirma: «Quase tudo o que sei como escritor aprendi-o correndo na rua todos os dias». Refere-se à concentração, à persistência, à vontade de superar os objectivos a que se propõe. Mas não imaginamos Nabokov a dizer «quase tudo o que sei como escritor aprendi-o a apanhar lepidópteros nos bosques», pois não?
Nalguns capítulos, Murakami consegue ser brilhante. Veja-se o relato do percurso feito entre Atenas e Maratona, num tórrido verão grego; ou a épica narrativa da ultramaratona de cem quilómetros, à volta do lago Saroma, na ilha de Hokkaido. Infelizmente, 90% deste livro foi escrito pelo Murakami-atleta, muito menos interessante do que o Murakami-escritor.
Avaliação: 5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Comentários
9 Responses to “O romancista que corre maratonas”
- Blogue Bizâncio em 10 de Fevereiro de 2012
- Ferreira Gullar ganha Prémio Moacyr Scliar em 9 de Fevereiro de 2012
- Logo à tarde em 9 de Fevereiro de 2012
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- Poesia para respirar em 8 de Fevereiro de 2012
- A grande machadada em 8 de Fevereiro de 2012
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Levado pela crítica (e também porque o Japão me fascina) comprei há tempos Em Busca do Carneiro Selvagem, Não o consegui terminar. Após uns capítulos, ficou de lado, à espera de melhores dias, com mais paciência. Entretanto, folheei em livrarias outras obras de Murakami; a mesma impressão. Enfim, gostos — ou a falta deles, dirão os apreciadores deste escritor.
A ideia também não é nova.
A premiada escritora Joyce Carol Oates, no seu livro “A Fé de um Escritor” dedica um capítulo ao tema – Correr e escrever – dizendo: “Idealmente, o corredor-que-é escritor percorre as paisagens rurais e urbanas que povoam a sua ficção, como um fantasma num cenário real.
Tem de haver uma analogia entre correr e sonhar. A mente do sonhador é em geral incorpórea, possui peculiares poderes de locomoção e, pelo menos, com base na minha experiência, muitas vezes corre ou desliza ou voa por sobre a terra ou pelo ar”.
Talvez um só capítulo sobre esta ideia, bastasse também a Haruki M.
É daqueles escritores que nos fazem interrogar sobre o que fizeram para ganhar um Nobel da literatura.
Caro xico: que eu saiba o Murakami ainda não ganhou o Nobel. Costuma estar nas listas de favoritos, mas só isso.
Jose Mario Silva
Tem toda a razão. Fiz confusão com o prémio do New York Times, o que não é a mesma coisa. Mas ao lê-lo com aquela fita indicando o prémio relacionei-o com o Nobel. Peço desculpa.
Eu posso contar pelos dedos os livros que comecei e não terminei. Pássaro de corda foi um deles. Ouvi no programa livro aberto o Pedro Mexia falar do escritor e quis conhece-lo, desde aí não sigo mais dicas literárias do Pedro Mexia (ontem “pensam que eu sou o último hetero vivo?” !!!!! Como é que um homem inteligente fica assim convencido e não tem inteligência de não o mostrar?).
Este Natal deram-me “a rapariga que sonhou um sonho” , achei que para mim era um título muito apropriado mas qdo vi o autor, pela primeira vez pensei, vou ler e se for igual, troco. Mas não vou trocar os contos lucram com o imprevisto, é um razoável contador de contos devia provavelmente nunca escrever romances. Não é um corredor de fundo. Mais para os 200m
Engraçado, não li uma crítica positiva sobre o Murakami em Portugal. Já é a segunda ou terceira resenha que acaba me caindo às vistas, e os comentários são sempre os mesmos: que não há paciência suficiente para o autor, que as pessoas desistiram de lê-lo.
Uma pena que não haja tantas traduções brasileiras como as que há em Portugal. Por aqui o autor está sendo divulgado aos poucos, e tem causado encanto. Eu mesmo sou uma entusiasta: comecei com “Hard-Boiled Wonderland and the end of the World” (sem tradução por aqui) e continuei com “Caçando Carneiros” (deve ser o “Em busca do carneiro selvagem” de vocês) “Minha querida Sputnik”, “Após o anoitecer” e mais uns dois ou três títulos. A facilidade com que dialoga com o realismo mágico e a agudeza de alguns diálogos prendem minha atenção – em suma, gosto muito.
Enfim, gostos, como foi dito em um dos comentários acima.
Eu gostei dos contos.
a rapariga que sonhou um sonho todos sonhamos sonhos, erro.
“a rapariga que inventou um sonho” o título só se parecia comigo porque é a rapariga inventou um sonho.
E não sei quem foi o designer do livro mas parabens ao designer.