O sentido do trilho

O Estado do Bosque
Autor: José Tolentino Mendonça
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 65
ISBN: 978-972-37-1663-4
Ano de publicação: 2013

Na primeira incursão dramatúrgica de José Tolentino Mendonça, Perdoar Helena (2005), surgia em palco um encenador em estado de dúvida – uma dúvida tão aguda que o levava a desistir, a poucas horas da estreia, não só do espectáculo em que vinha trabalhando mas do próprio teatro. Em O Estado do Bosque, a nova peça que poderá ser vista na Cornucópia entre 7 e 24 de Fevereiro, com encenação de Luís Miguel Cintra, há também uma personagem descrente do discurso que a engendra: «Sinto que o teatro acabou.» Mais do que autoconsciência pós-moderna, trata-se aqui de honestidade intelectual. Porque este texto só é teatro no sentido em que foi escrito em cenas, com diálogos, para ser dito por actores. Se há nele uma força dramática, essa força não tem centro, nem objecto. É uma névoa de palavras, uma imanência. Não há propriamente um enredo, uma história, antes um desígnio metafísico que se materializa, elíptico e fugidio, através das subtilezas da linguagem poética de Tolentino Mendonça.
«Qual é o sentido do trilho?», pergunta-se logo na primeira fala. «Não sei. Cada trilho conduz a mais do que um sentido», responde John Wolf, o guia cego que se orienta na escuridão («a passagem de tudo, mesmo de um sopro de vento, deixa uma luz que lhe serve de mapa»). Dois viajantes preparam-se para entrar no bosque, atrás de Wolf, procurando algo que não conseguem definir. Do passado trazem coisas impalpáveis: uma angústia repentina, uma inquietude tão difusa como a «sombra que corta rápida a superfície» das águas. Certo dia acordaram prostrados, perdidos de si mesmos, sujeitos ao estranhamento (a normalidade a tornar-se «selvagem», com «ramos e matagal por todo o lado»), um vazio que talvez só a ordem profunda da natureza, algures nos caminhos do bosque, conseguirá curar. Por isso se deixam guiar pelo cego que sabe ler os sinais de uma transcendência oculta, opaca, secreta: «continuamos a murmurar diante do que se cala».
Como grande metáfora, o bosque é o que as personagens nele projectam: para os viajantes, uma saída do labirinto existencial; para John Wolf, uma epifania que lhe permite ver «o rosto de Deus»; para a ambientalista Viviane Mars, uma hipótese de a humanidade se redimir, regressando às origens. É justamente na cena com Mars que o texto mais vacila, ferido de um prosaísmo que não encaixa no tom geral da peça. Contraponto religioso do ecologismo militante de Viviane, a figura de Wolf – crítico feroz da vertigem do progresso tecnológico que transformou o mundo num lugar «sombrio e severo» (onde o falcão «deixou de contar connosco para que o ensinemos a voar») – também se revela problemática. Sobretudo quando resvala da contemplação mística para um arremedo de oráculo zen: «Quem não apaga a meta não vê nada do que está entre o início e o fim do caminho». Ou: «Não tens de escutar. Tens de te escutar.» O melhor de O Estado do Bosque são mesmo os momentos de poesia em estado puro: «Rosas espalhadas pela neve. Chega até mim o seu perfume. As pétalas são como brasas no gelo. Não sei explicar, mas tudo ganha uma beleza que antes não tinha.»

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “O sentido do trilho”

  1. Ricardo Régua on Janeiro 25th, 2013 13:59

    Caro, José Mário Silva, para Tolentino Mendonça o teatro acabou, simplesmente porque não o sabe escrever. Porque é que essa coisa do pós-modernismo tem de servir de desculpa àqueles cujas capacidades, ou predisposições estéticas, não possuem a força ou a vontade suficiente para cumprir os designios propostos por Aristóteles há mais de dois mil anos, mas cuja validade deveria, ainda hoje, manter-se? Para mim, como estudioso e investigador da Teoria da Literatura, mas também como leitor ávido e indivíduo atento ao mundo e à problemática da sua gente, são os únicos que fazem sentido, sobretudo na construção dramática. O teatro português não precisa de Tolentino Mendonça, nem de fulgurâncias metafóricas. A poesia portuguesa, sem dúvida, vistos estarmos perante aquele que é, actualmente a meu ver e a de muitos outros, um dos seus expoentes máximos. Mas o teatro não.

    Um abraço

  2. Ricardo Régua on Janeiro 25th, 2013 14:29

    p.s. E já agora, porque não a devida referência a Maeterlinck?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges