O som do tempo a passar

A Visita do Brutamontes
Autora: Jennifer Egan
Título original: A Visit from the Goon Squad
Tradução: Jorge Pereirinha Pires
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 371
ISBN: 978-989-722-004-3
Ano de publicação: 2012

No primeiro capítulo de A Visita do Brutamontes, romance que deu a Jennifer Egan o Pulitzer de Ficção e o National Book Critics Circle Award de 2011, é-nos apresentada Sasha, rapariga cleptomaníaca que rouba uma carteira na casa de banho de um hotel nova-iorquino, antes de se apropriar de um papel sem importância que pertence a Alex, parceiro sexual de ocasião que ela decidiu levar naquela noite para o seu apartamento e nunca mais verá. Sasha trabalha como assistente de Bennie, um produtor musical decadente que está no foco do segundo capítulo, durante o qual o vemos várias vezes deitar flocos de ouro no café, entre outras extravagâncias típicas de quem tenta resistir à perda de estatuto. Bennie começou por ser o baixista medíocre de uma banda inaudível, depois trepou na hierarquia da indústria musical ao descobrir um grupo que vendeu vários discos de platina (os Conduits), mas agora está num impasse. Ele sente-se cúmplice da passagem do analógico para o digital, esse «holocausto estético» que suga a vida a tudo o que foi «coado através dos seus microscópicos interstícios», odeia o seu trabalho, é assaltado por «memórias vergonhosas» e perdeu o «impulso sexual». A música impingida ao público pela sua editora, entretanto vendida a um grande grupo económico, é inerte e fria como «os quadrados de néon dos escritórios que retalhavam o azul do crepúsculo». À melancolia do arrependimento, Bennie tenta então sobrepor o desejo que Sasha lhe desperta.
Chegados aqui, é natural que os leitores criem a expectativa de que a narrativa continue a acompanhar Sasha e Bennie nos seus dilemas, nas suas vidas passadas, nas suas interacções com outras personagens, mas nunca os afastando muito do primeiro plano. Acontece que o objectivo de Jennifer Egan consiste precisamente em pulverizar essa expectativa – e é no modo brilhante como o faz que reside o triunfo absoluto de A Visita do Brutamontes. Se no terceiro capítulo ainda assistimos a um regresso à cena punk de São Francisco no final dos anos 70, quando Bennie perde uma namorada para o guitarrista da tal banda inaudível (os Dildos Flamejantes), a partir do quarto capítulo a linearidade narrativa estilhaça-se de vez. Subitamente, estamos num safári em África, com personagens novas que circulam em torno de Lou, uma figura que aparecera antes apenas de forma marginal.
Compreendemos então que este é um romance centrífugo, sempre a divergir do que seria o seu caminho previsível. Em vez de seguir em frente, ele anda para os lados, avança para a sua própria periferia. Egan consegue isto com mudanças abruptas de tom, de narrador, de atmosfera, de paisagem e de tempo histórico. Tão depressa assistimos ao afogamento narrado na segunda pessoa de um amigo de Sasha dos tempos da faculdade, como à operação de limpeza da imagem pública de um «ditador genocida» num país tropical, conduzida por uma relações públicas caída em desgraça. E se um capítulo assume a forma de perfil jornalístico sobre uma celebridade menor, pretexto para um pastiche de David Foster Wallace (a que não falta a erudição proliferante, a ironia amarga, as muitas notas de rodapé), outro capítulo reduz, com brilho formal e espantosa capacidade de síntese, a vida familiar de uma menina de 12 anos aos esquemas descontínuos de um ficheiro de PowerPoint.
O mais espantoso nesta ficção, algures entre o romance de estrutura heterodoxa e a colectânea de contos que funcionam como unidades autónomas, é que Egan nunca perde o sentido do tema que atravessa todas as suas histórias dispersas: o tempo enquanto agente de mudança que tanto pode maltratar-nos (é ele o «brutamontes» do título) como redimir-nos, às vezes inesperadamente. O livro termina numa Nova Iorque futura, na década de 2020, com um concerto junto ao ground zero reconstruído. A música que fica a pairar, porém, não é a da slide guitar de Scotty, a improvável estrela inventada por Bennie, mas antes o «zumbido» da cidade, mistura de taipais a serem corridos, cães a ladrar «roucamente» e camiões a passar sobre as pontes, que é o «som do tempo a passar».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “O som do tempo a passar”

  1. Jennifer Egan: “Este livro é peripatético, está sempre a deambular” | Bibliotecário de Babel on Abril 23rd, 2012 10:19

    […] literária. A Visit From the Goon Squad, editado por estes dias pela Quetzal, com o título A Visita do Brutamontes, não só recebeu críticas entusiásticas na imprensa dos EUA como arrebatou, em 2011, dois dos […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges