O tio húngaro

Vidas Entrelaçadas
Autor: Linda Grant
Título original: The Clothes on Their Backs
Tradução: Isabel Alves
Editora: Civilização
N.º de páginas: 302
ISBN: 978-972-26-2828-0
Ano de publicação: 2009

Vivien Kovaks é uma rapariga introvertida e com ambições literárias que vive num típico prédio de tijolos vermelhos, em Benson Court, com os pais – húngaros emigrados para Inglaterra em 1938 (mesmo a tempo de escaparem aos horrores da II Guerra Mundial). Reservados e paranóicos, com pavor de qualquer mudança que os obrigue a regressar à pátria, os progenitores vivem numa espécie de reclusão voluntária, fazendo do passado familiar um território opaco, cujas fronteiras a filha nunca conseguiu discernir. O processo de libertação – pessoal, política, sexual e identitária – de Vivien, numa altura (a segunda metade dos anos 70) em que Londres assistia a um surto de intolerância racista, alimentada por grupúsculos de extrema-direita, está no cerne deste sólido romance de Linda Grant, que em 2008 chegou à shortlist (isto é, ao lote de seis finalistas) do Man Booker Prize, ganho por Aravind Adiga, autor indiano de O Tigre Branco (editado pela Presença).
O factor que desencadeia a mudança em Vivien, regressada à casa paterna depois de enviuvar precocemente, é o reencontro com o tio Sándor, irmão do pai, figura fascinante e perigosa, um sedutor bem vestido que passou alguns anos na cadeia, depois de descobertos os abusos a que sujeitava os seus inquilinos, maioritariamente negros oriundos das Caraíbas. Embora reconheça o homem que vira apenas uma vez, e de relance (aos dez anos, quando ele lhe tentou oferecer uma barra de Toblerone, à porta de casa, durante uma discussão com o seu pai), Vivien, sob um falso nome, aceita trabalhar como secretária, gravando e transcrevendo as memórias que o tio proscrito quer fixar num livro biográfico. Por portas travessas, ela recupera assim as histórias de família que os pais desde sempre lhe esconderam e aprende que «os sobreviventes resistem graças à sua força, astúcia ou sorte e não à sua bondade e muito menos à sua inocência».
A estrutura do livro é simples, clássica, nada de muito arriscado ou inventivo. Por vezes o romance hesita, patina um pouco em linhas narrativas estéreis, mas nunca chega a perder completamente o fôlego ou o foco. Grant sabe o que faz, define bem o recorte psicológico das personagens e escreve num estilo ameno, com um toque de nostalgia. Na verdade, só falha mesmo na tentativa de criar uma metáfora abrangente, segundo a qual as roupas, e o modo como são usadas, reflectem aquilo que somos (o título inglês é The Clothes on Their Backs). Talvez isso aconteça, admitamos que sim, mas esta ideia nunca chega a ser desenvolvida de forma consistente.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 81 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges