O triunfo das amazonas

A Rainha no Palácio das Correntes de Ar
Autor: Stieg Larsson
Título original: Luftslottet Som Sprängdes
Tradução: Mário Dias Correia
Editora: Oceanos
N.º de páginas: 715
ISBN: 978-989-23-0533-2
Ano de publicação: 2009
Stieg Larsson (1954-2004), o jornalista sueco que se tornou – post-mortem – um dos escritores de policiais que mais vende em todo o mundo, estruturou cada um dos volumes da sua trilogia Millennium com o afinco, o rigor e a minúcia de um relojoeiro. Nestas diabólicas máquinas ficcionais, tão eficazes quanto viciantes, nada foi deixado ao acaso. Por muito complexos que sejam os enredos e vastas as galerias de personagens, o leitor nunca se sente perdido, as linhas narrativas nunca emperram nem se enredam (e muito menos se esfumam), as rodas dentadas encaixam-se umas nas outras com precisão milimétrica – enfim, tudo funciona às mil maravilhas. Se estes três livros não são thrillers perfeitos, andam mesmo lá perto.
Na página 654 de A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, Mikael Blomkvist, o protagonista maior da série Millennium, resume numa só frase a trama deste volume final (e, vendo bem, de toda a trilogia): «o tema desta história não são espiões nem segredos de Estado, mas a violência exercida contra as mulheres, e os homens que a tornam possível». Embora Larsson seja capaz de explorar, nalguns casos em simultâneo, vários temas de grande actualidade – como a pirataria informática, os crimes financeiros, as falhas do sistema de protecção social escandinavo, o funcionamento obscuro dos serviços secretos, a crise da imprensa ou as ameaças internas a que está exposta a própria democracia –, em última análise é sempre de uma vindicação das mulheres que se trata.
Efectivamente, se excluirmos Blomkvist, todas as grandes personagens da série são femininas. Acima de todas, claro, Lisbeth Salander (a anti-heroína, a quase mártir de um sistema que a violentou e marginalizou). Mas também Erika Berger (jornalista), Annika Giannini (advogada), Rosa Figuerola (investigadora criminal), tudo mulheres de extraordinária têmpera, a que se juntam várias figuras secundárias fortes: Harriet Vanger, Miriam Wu, Sonja Modig ou Susanne Linder. São elas as amazonas do século XXI, as descendentes da estirpe de mulheres-guerreiras a que Larsson, talvez um dos escritores mais feministas dos últimos tempos (o que não deixa de ser irónico), alude na introdução a cada uma das partes deste terceiro volume.
O resto é mestria na arte de contar histórias, sem pretensões literárias (o estilo é neutro; quem gosta de sublinhar belas frases pouco uso dará ao lápis), mas indo muito além do mero entretenimento, ao colocar o dedo em várias feridas, sociais e políticas, do mundo contemporâneo. Fechada a trilogia, não há mais Larsson para publicar. E é pena.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no número 83 da revista Ler]
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tenho de ler.gostei do filme.