O universo em ondas de beleza

Anthero Areia & Água
Autor: Armando Silva Carvalho
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-972-37-1493-7
Ano de publicação: 2010

Na génese desta extraordinária aproximação à figura e à voz poética de Antero de Quental (1842-1891) está um texto publicado por Armando Silva Carvalho (ASC), já este ano, na revista Colóquio – Letras (n.º 173, Janeiro/Abril). Ao evocar o suicídio «sem qualquer espécie de retórica» de Antero — os célebres dois tiros disparados na boca, em Ponta Delgada, num banco de jardim —, ASC explica a natureza do fascínio que sente pelo autor das Odes Modernas: «Por mim, pois sou eu que estou aqui / Por trás da escrita, Queria perceber — entre a leitura dos textos / E o que a invenção do tempo me faz chegar às mãos / Que ainda estremecem — / A estranha sedução que me provoca / O que ficou do corpo, que dizem que foi teu». Mais adiante, concretiza: «Hoje entrego-me total e mentalmente a Anthero // Direi depois se puder / E em livro / As causas desta minha decadência / Já surda à voz das grandes multidões, / Cansadas também elas / Das palavras que lhes deitam por cima como bombas / Em árias suicidas / No palco da mentira universal, / Como ele também dizia». O livro prometido, e que ASC felizmente conseguiu escrever, é este Anthero Areia & Água, que daquele poema fundador toma o título e também os versos, em jeito de prefácio.
Uma entrega tão radical a Antero, num processo que coincidiu com a leitura das suas cartas (publicadas por Ana Maria Almeida Martins na Imprensa Nacional – Casa da Moeda), implicava um risco enorme. Porque estes não são meros poemas sobre Antero, escritos por alguém que veio depois; são poemas em que Antero é o sujeito poético, é a voz que fala, naquele tom solene dos seus sonetos «em que hoje ninguém toca». No fundo, é um Antero em potência, olhando do alto — talvez do Infinito por ele tantas vezes invocado — para o que foi a sua vida, um Antero que abrange o futuro que não teve (o vibrante início do século XX, com o seu fulgor de máquinas, imagens em movimento, «tudo em labareda») e esse outro futuro, ainda mais distante, que é o nosso presente, um tempo em que os poetas «já não deixam escorrer das suas bocas / o espesso mel da tragédia» e em que se insinua o «pulsar cansado das multidões / frente ao lugar comum e democrata / do vosso dia-a-dia».
Se para o vate das «barbas nimbadas de melancolia» a memória era «o túmulo dos meus versos», o mínimo que se pode dizer é que ASC procede à exumação com total desvelo. O retrato do «ilhéu descentrado em maresias», de corpo «incandescente, eléctrico, lucífero», vergado ao «peso terrível da insónia» e com olhos «magoados pelo sol da solidão», emerge de uma espécie de bruma, surge-nos ao mesmo tempo difuso e muito nítido. À semelhança da biografia — recordações de Coimbra, Paris, Vila do Conde, Açores, dos amigos (Bulhão Pato, Eça) e das leituras (Cesário Verde, Whitman, os vituperados russos) —, em que se convocam os factos da existência, mas como que atrás de uma cortina. A matéria essencial dos poemas são as «ideias», as «afamadas damas» que acenam com «abstracto lenço». E o lugar de onde não saímos é a cabeça de Antero, «palco ético» para uma busca da transcendência e da justiça, essa «concreta forma da justiça, / onde o universo explode em ondas de beleza».
Mencionámos o risco que ASC correu ao assumir a voz de Antero como sua. E o risco podia manifestar-se de duas formas: ou transformando ASC num epígono caricatural; ou fazendo de Antero o boneco nas mãos do ventríloquo. Nenhuma das hipóteses se verifica. Pelo contrário, o que acontece é uma espécie de fusão entre universos poéticos distintos, que se acrescentam um ao outro num «êxtase virtual». O poema que aborda esta convergência intitula-se Quântica, talvez porque é a um nível quase subatómico que ela se processa. Eis o início da segunda estrofe: «Doem-me os nervos batidos num teclado / Por dedos intraduzíveis.» Os «dedos» de um (ASC) a tocarem os «nervos» do outro (Antero) através da experiência da escrita. Ou seja, da linguagem, erguida aqui a alturas poucas vezes alcançadas pela poesia portuguesa contemporânea:

«(…) Mas o meu destino foi belo como um cisne.
Não disse, mas escrevo agora,
Que canto prolongado, esse meu canto,
Asas levíssimas, um peito branco em chamas,
Uma permanente brancura no negro noite da vida,
Sobre uma água sem fúria, lisa, dominada.

E se o cisne me foge
Tenho todas as frentes da alma em medievo,
Sei como armar a ciência em cordas desavindas
Que não dão para salvar, talvez para curar,
O corpo atrofiado, os nervos meio convulsos,
A boca esfíngica do mal na minha boca.

Tentamos sempre disfarçar nos textos
Uma pequena história metafísica que nos livre da dor,
Da pequenina, íssima dor de sermos animais. (…)»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges