Obra bufa

A Arte de Dar Peidos
Autor: Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut
Ilustrações: José María Lema
Título original: L’Art de Péter
Tradução: Jorge Lima Alves
Editora: Orfeu Negro
N.º de páginas: 108
ISBN: 978-989-832-709-3
Ano de publicação: 2010

Publicado anonimamente em 1751, A Arte de Dar Peidos, «ensaio teórico-físico e metódico» do francês Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut (em boa hora editado pela Orfeu Negro, na tradução competente de Jorge Lima Alves), é um clássico airoso sobre um tema nada airoso: a flatulência. Animado pelo espírito das Luzes, este contemporâneo da Encyclopédie de Diderot e D’Alembert decidiu analisar «com toda a exactidão possível» um tema que nunca fora tratado cientificamente, mais por preconceito do que por ignorância. «É vergonhoso, leitor, que, depois de tantos anos a dar peidos, ainda não saibais como o fazeis e como deveis fazê-lo», insurge-se o especialista escatológico, para quem «dar peidos é uma arte e, por conseguinte, algo útil à vida».
Como qualquer bom investigador, Hurtaut começa por definir o objecto dos seus estudos, mas não se fica pela noção limitada de que um peido resulta das ventosidades libertadas pelo ânus «com ou sem estardalhaço». O assunto é complexo e Hurtaut não se poupa a esforços de inventariação e nomenclatura, recorrendo a um palavreado anatómico patusco e a descrições tão exaustivas como involuntariamente humorísticas. À falta de rigor científico, convocam-se filósofos e poetas que abordaram o tema, de Cícero a Horácio, com amplas citações em Latim e referências eruditas que conferem aos «peidinhos» e «bufas» uma inesperada nobreza. O autor não esconde os efeitos perniciosos (dos «odores mais infectos» aos danos no vestuário) mas considera-os «apenas acidentais». Muito pior é conter tais eflúvios dentro do corpo, porque ao não acharem saída, «atacam o cérebro» e «corrompem a imaginação», tornando a pessoa «melancólica e frenética».
Resumindo: sejam secos ou molhados, pestilentos ou inodoros, tonitruantes ou silenciosos, «mais vale largá-los do que expor-se a sofrer os seus incómodos». E se ao alívio (e até prazer) de quem se solta se juntar uma sensibilidade artística, melhor. Hurtaut acredita que há música nos peidos («o baixo-ventre é uma espécie de órgão polifónico») e espera que um dia surja o compositor que saiba dar uso àquela vasta panóplia de sons (62, garante, «quem quiser que os conte»).
A acompanhar o divertidíssimo texto, dezenas de magníficas (e não menos divertidas) ilustrações de José María Lema.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 98 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Obra bufa”

  1. csd on Março 14th, 2011 13:41

    é mesmo uma obra buffa!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges