Olhos de menina obscura

As Mãos Pequenas
Autor: Andrés Barba
Título original: Las Manos Pequeñas
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: Minotauro
N.º de páginas: 87
ISBN: 978-972-44-1594-9
Ano de publicação: 2010

Nesta narrativa de um lirismo sombrio e despojado, Andrés Barba (n. 1975) aproxima-se de um território difícil de explorar literariamente: o mundo da infância, oscilando entre inocência e brutalidade, com uma lógica por vezes cruel, em que amor e ódio podem ser duas faces da mesma moeda. Marina tem sete anos e a vida destroçada por um acidente de automóvel. A perda reduziu-se a uma única frase, repetida como um estribilho: «O meu pai morreu de morte imediata, a minha mãe no hospital.» Palavras que são uma espécie de escudo, talvez a única forma de «fixar o que não podia ser fixado».
Quando chega ao orfanato, com uma boneca igual a ela (até no nome) e uma cicatriz no ombro, as meninas que já lá estão, quase indistintas e fundidas numa espécie de narrador coral, recebem-na com um misto de fascínio e desconfiança. A recém-chegada olha «com olhos de menina obscura», é «diferente», há nela uma estranheza que contamina tudo e a coloca no centro de sucessivos círculos de atracção e repulsa, culminando num jogo de despersonalização (as meninas transformadas em bonecas) que vai longe demais.
Barba transmite com mestria a dinâmica da perversidade infantil, mas o livro vale sobretudo pelo altíssimo conseguimento da sua linguagem. Atente-se, por exemplo, nesta exemplar descrição do orfanato: «Erguia-se com uma impaciência estranha, como se por cima do jardim houvesse outro jardim, e sobre a planta do edifício alguém tivesse traçado um desenho no ar, uma linha negra e finíssima sobre o perfil de cada uma das janelas e das portas que fizesse com que a casa aparecesse sublinhada na paisagem.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Olhos de menina obscura”

  1. csd on Setembro 15th, 2010 9:43

    a comprar. urgente.

    csd

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges