Onde o vento não sopra

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Zero à Esquerda
Autor: Manuel Jorge Marmelo
Editora: Edição de autor
N.º de páginas: 125
ISBN: 978-148-40-8797-8
Ano de publicação: 2013

A pretexto da crise económica, muitas editoras vêm reduzindo de forma drástica o número de livros que publicam. Sem surpresa, as principais vítimas são os géneros comercialmente menos interessantes, como as recolhas de contos ou crónicas. Consciente do problema, Manuel Jorge Marmelo procurou uma solução alternativa e acaba de publicar dois livros fora do circuito habitual das livrarias, em edições de autor, distribuídas através da Amazon. As Crónicas do Autocarro existem apenas em versão electrónica (com uma pequeníssima tiragem em papel, de 100 exemplares assinados), enquanto Zero à Esquerda, uma recolha de contos dispersos, foi impressa nos EUA e é vendida nas lojas americana e francesa da maior livraria online do mundo.
Os textos mais longos e interessantes de Zero à Esquerda têm Cabo Verde como cenário. Logo na primeira história, um fotógrafo dispara a sua máquina ao acaso, procurando captar no tecido caótico da realidade as subtilezas que escapam a um primeiro olhar. No fundo, ele deseja «ver para além do que pode ser visto»; ele quer desvendar o que «a aparência oculta». Este impulso é comum a quase todos os narradores deste livro, no modo como procuram descrever, ora com subtileza, ora com ironia, amores impossivelmente líricos e devaneios sensuais, movimentos de fuga ou de isolamento, dilemas identitários, alegrias insulares e outras aproximações ao cerne da vida cabo-verdiana (a sua paisagem, a sua música, o seu falar crioulo). No conto que dá título ao livro, um homem esconde-se debaixo de um cobertor «velho e puído», a ler e a escrever com a pouca luz que entra pelos buracos feitos pelas traças. É uma figura que procura desaparecer do mundo, apagar-se, e utiliza a literatura como instrumento para esse eclipse. Marmelo cita Walser e Pynchon, há quase sempre uma auto-consciência do fazer literário, mas depois a escrita solta-se quando as mulatas agitam as noites do alto da sua beleza, inclinando a prosa para a toada das mornas e para a melancolia que se mistura com o desejo.
Num dos seus romances, Enrique Vila-Matas criou um personagem, Federico Mayol, que empreende uma «viagem vertical», do Porto à Madeira, passando por Lisboa. MJM imagina que essa viagem continuou e coloca Mayol ainda mais a sul, numa esplanada de São Vicente, a ler um livro que talvez seja «infinito» ou «inesgotável». Numa ilha ventosa, o septuagenário é conhecido pelo facto de nunca correr uma brisa nos sítios por onde anda. O mistério talvez se explique pelo facto de ele não existir realmente, de ser uma figura inventada por Vila-Matas, preso «num limbo onde nada acontece e o vento não sopra», e talvez isto suceda «com todos os personagens de todos os livros quando as histórias chegam ao fim». Uma ideia que nos dá esperança quanto ao destino, por exemplo, do saxofonista Quentin Maschado (Crescendo and diminuendo in blue), da Anita vendedora de compota de fruta (A doçura), da Benvida que não vem à janela ouvir uma serenata, ou do futebolista que todas as noites sonha que pode qualificar Cabo Verde para o Campeonato do Mundo e falha o golo decisivo. Pode ser que se sentem todos à mesa com Mayol, na esplanada onde o vento não sopra, do outro lado da ficção. E bebam à saúde de quem tão bem os inventou.
Os contos mais curtos, guardados para o fim, ficam aquém das histórias cabo-verdianas. São exercícios divertidos, vinhetas provocatórias ou absurdas (algumas demasiado esquemáticas, outras dispensáveis), um complemento que a densidade dos textos longos não pedia. Ainda assim, Um insecto muito repugnante e António espanta os peixes são miniaturas preciosas.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges