Os banhistas zombies

Histórias Amorais para Crianças e Animais
Autor: João Diogo Zagalo
Editora: Angelus Novus
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-972-8827-83-0
Ano de publicação: 2011

Com as suas desconcertantes Histórias Amorais para Crianças e Animais, uma bela obra de estreia, João Diogo Zagalo junta-se a uma corrente infelizmente pouco explorada na literatura portuguesa: a da narrativa ácida, ora delirante, ora absurda, em tempos praticada por Mário Henrique Leiria e ultimamente recuperada por Rui Manuel Amaral. É uma escrita que conhece os mecanismos tradicionais da ficção, as suas regras, os seus truques, e depois se encarrega de os desmontar, de os virar do avesso, de os reinventar.
O livro está organizado em cinco partes. Na primeira, fala-se essencialmente de amores e ódios, quase sempre de forma distorcida. Aberrações anatómicas, equívocos tecnológicos (via SMS), diálogos vazios literalmente em torno de nada, casos de necrofilia, um choque frontal entre o erotismo e o Direito (com sugestivas expressões em latim) – há de tudo. Até um homem que diz amar a namorada «quase tanto como um saco de batatas».
Seguem-se contos sobre um tema árduo: o trabalho. Em As Camisolas dos meus Colegas, um novo funcionário invisível (ou talvez inexistente) aumenta por linhas tortas a produtividade da empresa. Que Força é Essa? explica o significado do verbo procrastinar. E a Carta endereçada ao Menino Jesus, da parte de um advogado esfomeado está mesmo a pedir para ser o hino irónico da geração à rasca. Nesta secção do livro, abundam os escritórios, algures entre Franz Kafka e Ricky Gervais.
A terceira parte, talvez a menos interessante, nasceu da leitura de fait-divers e notícias de jornal. Além de uma sátira à profusão de biopics em Hollywood e de uma caricatura mordaz da literatura light nacional, vale pela invenção de um conceito curioso: os «não-obituários de pessoas desconhecidas».
Na quarta parte, Zagalo, inspirando-se nos entremezes medievais, criou diálogos eficazes e de um fino humor (destaque para a deliciosa paródia aos comentadores televisivos). Por fim, surgem os contos baseados em personagens de histórias infantis ou da mitologia popular: Pinóquio vítima das suas mentiras úteis; Drácula agarrado ao Facebook; a história de Hansel e Gretel como a poderia ter contado Boris Vian. A melhor história, porém, intitula-se Os Banhistas Zombies, um relato de como as coisas mais estranhas se podem dissolver naquilo a que chamamos normalidade (e, de certa forma, uma chave para a lógica secreta desta escrita).
Quanto ao epílogo, «em jeito de final feliz», resume tudo o que lemos antes, levando-o ao paroxismo. E confirma uma ideia: a de que valerá a pena acompanhar, muito de perto, a trajectória futura de João Diogo Zagalo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Os banhistas zombies

  1. Esta semana « Rascunhos on Setembro 18th, 2011 21:52

    […] – Histórias Amorais para Crianças e Animais – João Diogo Zagalo (Bibliotecário de Babel) […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges