Os limites do saber

História do Sábio Fechado na sua Biblioteca
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-972-37-1401-2
Ano de publicação: 2009

Escrita originalmente para a companhia teatral Pé de Vento – no momento em que esta celebrava três décadas de actividade – e estreada no Teatro da Vilarinha (Porto), em Junho de 2008, a História do Sábio Fechado na sua Biblioteca é uma parábola sobre a impossibilidade de um conhecimento total, narrada com elegância, precisão milimétrica e meridiana clareza por Manuel António Pina – um dos nossos melhores poetas, além de mestre na arte de comunicar com os mais novos, sem facilidades nem infantilismos.
Num lugar nunca nomeado, vive um Sábio absoluto, um Sábio tão sábio que já leu todos os livros do mundo e conhece tudo o que há para conhecer. Uma tal omnisciência, imune à surpresa e ao espanto, deixa-o melancólico e entregue à solidão da sua Biblioteca. Até que um dia a Morte tenta apanhá-lo desprevenido, única forma de o conseguir levar para o Reino das Sombras. Sob vários disfarces (um Estrangeiro, um Palhaço, uma Rapariga), a Morte procura levar a melhor com embustes, mas não consegue. A excessiva sabedoria do Sábio é a sua maldição: mesmo quando se descobre cansado de viver, percebe que não se pode entregar à Morte, porque ela só o alcançará quando ele não a reconhecer (e ele reconhece tudo).
A libertação implica uma saída do labirinto de livros em que se emparedou. E é apenas quando por fim enfrenta a realidade – descobrindo a verdadeira fome, a verdadeira compaixão, o verdadeiro sofrimento, o verdadeiro amor – que o Sábio se apercebe dos limites do seu vasto saber. É uma lição, claro. E das subtis: tão irónica quanto poética.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges