Ouvir as aves

O Banquete
Autora: Patrícia Portela
Editora: Caminho
N.º de páginas: 316
ISBN: 978-972-21-2578-9
Ano de publicação: 2012

Clássico da literatura persa, A Conferência dos Pássaros, de Farid ud-Din Attar, é um poema místico com mais de 4500 versos em que aves de todo o mundo se reúnem para decidir quem será o seu rei, numa alegoria da busca de Deus que replica os fundamentos da doutrina sufi. Em O Banquete, romance heterodoxo onde cabe tudo e mais alguma coisa, das histórias fundadoras da civilização ocidental às teorias científicas mais avançadas (genética, clonagem, etc.), Patrícia Portela também encena uma «Conferência dos Pássaros», na qual às aves se juntam «abelhas, aranhas e ventos» para discutir, com carácter de urgência, «a condição do Homem». Ou seja, para reavaliar a sua «imortalidade» e ponderar se não é melhor colocar-lhe «um fim», antes que a espécie dominante acabe com o planeta, dizimado por alterações climáticas e outras interferências nos equilíbrios ecológicos.
Em parte, esta instabilidade ficaria a dever-se ao estatuto de «quimera» com pólos opostos, em que a «metade natureza» (animal) conflitua com a «metade humana» (de aspiração «divina»). Em sucessivas prédicas, as aves – a cegonha mais velha do planeta, um pavão, uma coruja, uma pomba branca, uma galinha – vão multiplicando as perspectivas, os queixumes e os desejos de vingança, mas a lucidez vem das aranhas e das abelhas, conscientes de que tentar mudar o bicho-Homem é um esforço inglório, porque ele não muda. Mais vale ajudá-lo a «reencontrar a sua memória original» através da escrita: «Se os humanos são tão agarrados a histórias, se vivem de acordo com as histórias que escrevem, não precisamos de os mudar, precisamos apenas de os convencer a escrever uma nova história! Uma história que os faça acreditar que podem começar de novo! Que estão a começar de novo! Tal e qual como são, mas como se já não fossem duas metades, mas um só!»
De certo modo, é essa história que Patrícia Portela narra – de forma não-linear e transitando gradualmente de um estilo realista para um onirismo caótico – em O Banquete. A protagonista do romance é uma investigadora de topo em Biologia Molecular, uma «popstar da ciência» que dá a cara pelo desenvolvimento do primeiro cromossoma artificial. Criado para ser introduzido em pacientes com traumas psicológicos, o cromossoma 47 é uma «espécie de vacina contra as más memórias», uma «cápsula temporal», uma «arca de Noé» química, «cofre biológico» que preserva uma parte do que somos para a eternidade. Ingeri-lo equivale a espalhar a «doença da imortalidade», mas também a abrir uma caixa de Pandora. E é precisamente isso que a cientista faz, quando um dia se descobre incapaz de sair de casa, prisioneira das suas fobias, paralisada, como que a «jejuar do mundo».
Se dormir é acordar os fantasmas, «os outros que somos, os outros que fomos, os outros que poderíamos ter sido, e os que ainda podemos ou queremos ser», ela não enjeita esse caminho, desdobrando-se em sonhos que invadem a própria realidade. É já num domínio puramente onírico que ela consegue por fim sair de casa, de roupão japonês e ténis brancos, metendo-se num comboio internacional que a traz de volta a Lisboa, como «um samurai sem espada». À sua espera, uma «descoberta intrigante» a pedir que a decifrem: nos subterrâneos da cidade foi achada uma vítima do terramoto de 1755, em perfeito estado de conservação, muito semelhante a uma rapariga romana encontrada em 1485 na Via Appia. E muito parecida com ela mesma, por razões que mais à frente se tornarão claras.
O Banquete é um livro difícil, exigente, por vezes obscuro, alternando entre acumulações de factos concretos – notícias, fórmulas químicas, estruturas moleculares («O ADN e a palavra, frente e verso do mesmo corpo») – e elaborados capítulos em verso livre, com referências a mitos bíblicos e à experiência do mundo enquanto matéria comestível. À medida que a narrativa avança, assistimos a um esgarçamento dos vários discursos sobrepostos. Aos poucos, tudo se mistura, tudo se confunde, tudo se transforma, como na célebre frase de Lavoisier escolhida para epígrafe. Talvez a clonagem seja mesmo a «estratégia biológica para tornar a ficção verdadeira». Mas evitem-se as ilusões: «Julgamo-nos todos Faustos quando, no fundo, somos todos Mefistófeles.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges