Passos em falso

Há Dias
Autores: Bénédicte Houart e João Filipe Marques
Editora: &Etc
N.º de páginas: 81
ISBN: 978-989-8150-38-7
Ano de publicação: 2012

Este livro nasce do diálogo tenso entre duas linguagens, uma espécie de toca-e-foge entre os curtos poemas em prosa de Bénédicte Houart e as fotografias estilizadas de João Filipe Marques. Os poemas falam-nos da passagem do tempo como «puro terror» que destapa a fragilidade última da experiência humana. O discurso avança aos tombos, tacteando, suspendendo-se à beira do vazio: «Dias em que não terminamos nenhuma frase, como se nos arrependêssemos até da primeira que pronunciámos, e se não nos lembramos dela, que importa, lembramo-nos bem de todas aquelas que guardámos para nós até as gengivas sangrarem.»
Qualquer coisa ata a língua, faz com que se torça. A voz ergue-se de um lugar estilhaçado. Pelo contrário, as imagens exibem um certo rigor geométrico que impõe ordem ao mundo: quatro pedras soltas criam um plano cartesiano, uma cama desfeita exibe a ausência de quem nela dormiu, há sombras estendendo-se no chão, texturas metálicas, persianas, um copo caído, portas trancadas ou entreabertas, efeitos de luz, uma página de O Coração das Trevas (Joseph Conrad) na língua original.
O sujeito poético enumera «passos em falso» – uma arte de fracassar – como quem se resigna a «morrer logo de susto e de beleza». Tudo o que se diz é «impropriamente dito», por isso mais vale esperar que os objectos falem «em seu próprio nome». Mas eles são meras assombrações, fantasmas na página. Então o que sobra é uma forma de silêncio. A língua desata-se só para ficar «encostada ao céu da boca»: «Somos sobreviventes. A vida que quisemos, não a tivemos. Aquela que temos, não a escolhemos. Veio-se-nos. Faltou-nos uma vocação, essa para vivermos a única vida que realmente nos importava.»

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges