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Pequeno tratado de ornitologia lírica

O Livro das Aves
Autor: Tiago Patrício
Editora: Quasi
N.º de páginas: 51
ISBN: 978-989-552-404-4
Ano de publicação: 2009

Vencedor da edição deste ano do Prémio Daniel Faria, com O Livro das Aves, Tiago Patrício (n. 1979) revelou-se como poeta nas antologias literárias de 2007 e 2008 do concurso “Jovens Criadores”, organizado pelo Clube Português de Artes e Ideias, em trabalhos que já revelavam uma consistência invulgar num autor estreante.
A consistência, tanto estilística quanto temática, volta a ser o ponto forte do seu primeiro livro, que funciona como uma espécie de ciclo, declinação exaustiva de um mesmo tópico: o das aves (reais, metafóricas, míticas, fantásticas) e do seu voo, enquanto matéria volátil que engendra o próprio poema. Nalguns casos, Patrício deixa-se contaminar pela ilusão de leveza que a sua escrita depurada transmite aos versos e acaba por perder-se num labirinto de imagens fortes mas vazias, imagens que confundem profundidade com grandiloquência. Um exemplo:

O olhar obscuro e o ventre secreto
tem o princípio de uma serpente
atravessada no pensamento
e um véu cauterizado por uma oração
anterior à gravidade de Deus

Vocalizam certezas e feridas por sarar
na chamada para os comboios de Alcântara
Induzem uma influência mestiça nas casas
e formulam ligações directas aos lugares
por entre a emigração secreta do ser inicial
(…)

[excerto do poema As rolas turcas na estação de Alcântara Terra]

Quanto menos simbólica é a aproximação ornitológica, melhores são os poemas – como se pode comprovar lendo Os pardais da sinagoga de Tunis, Os pombos domésticos sobre as estátuas e Caçadores. Ou, ainda, o belíssimo Os pintassilgos de Mirandela, com as suas «gaiolas brancas / espalhadas pelo Verão», perto de um rio «com pomares e o cheiro de figos fáceis», a memória dos pássaros confundindo-se com a memória da infância perdida:

OS PINTASSILGOS DE MIRANDELA

Nasci numa casa com gaiolas brancas
espalhadas pelo Verão
Era o meu pai vivo e o meu avô estival
entrava pela hora mais terna
enquanto encarregado das gaiolas
e a minha infância inteira decrescia
no canto da casa dos pássaros

O alpendre era de uma inclinação natural
com avô e pássaros encostados à sombra dos álamos
e as gaiolas casas que os abrigavam
do frio, da fome e dos gatos bravos
A minha alegria era quente como a terra
e contava ensinar ao meu filho bisneto
a atracção pelos grilos, caracóis
e pintassilgos na doçura das borboletas

Em Mirandela havia um vale junto a um rio
com pomares e o cheiro de figos fáceis
Os pintassilgos divididos na abundância
eram como crianças atrás de amoras
que inspiram as flores de uma música sucessiva

O Pintassilgo é a mais bela ave silvestre
e se não pudesse manter as gaiolas em casa
era como se não houvesse onde permanecer
Eles amotinam-se nas minhas barbas
desalojam corvos e os dragões dos poemas
fazem a tarde parecer tão antiga e adormecer
como a infanta primavera em que o meu avô
era o estio e os bisnetos existiam mesmo
e os nossos olhos acariciavam os pássaros,
que é tão tarde agora para dizer aqueles que morriam
exaustos a contar os meses atrás das grades

Avaliação: 5,5/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

4 Responses to “Pequeno tratado de ornitologia lírica”

  1. Luís Nunes on Setembro 29th, 2009 19:28

    É curiosa a análise de quem escreve – na minha opinião, claro; e fundamentada apenas pela leitura de 4 ou 5 poemas da “luz Indecisa” – pior poesia . Mas um crítico não tem forçosamente de ser um bom escritor. E decerto haverá leituras diferentes.

    Cumprimentos

    • José Mário Silva on Setembro 29th, 2009 23:33

      É saudável que existam leituras diferentes dos mesmos livros, Luís. E, já agora, sugiro-lhe que leia o resto de ‘Luz Indecisa’ para fundamentar completamente a sua opinião.

      • luis leal on Setembro 30th, 2009 21:14

        Concordo com o “dissecação comparada” que o Mário faz dos poemas. Muito embora, não nos possamos alhear de que uma critica, por sua intrínseca natureza, está altamente subjugada à subjectividade. Mas para mim, os poemas do Mário, bem como o poema “Os pintassilgos de Mirandela”, são superiores ao poema (foi os únicos que li do Tiago Patrício) “As rolas turcas na estação de Alcântara Terra”
        Hoje em dia a poesia presta-se muito à divagação, na esperança que na incontinência dos caracteres surja a subtileza de uma frase, uma palavra;…
        O poema, por definição, deve ser uma ideia ou uma história contada com economia de palavras. Outra coisa é a prosa poética! Mas é desonesto escrever prosa poética e fazer uma forçada divisão das orações de modo a que fiquem arrumadinhas como poesia de verso. Nesse erro incorre o Mário; o Tiago, bem como muitos outros.
        Mas, em ultima análise, quem faz o poema é sempre quem o lê!

        • luis leal on Setembro 30th, 2009 21:16

          Mas independentemente da forma que se lhe dê; preciso é a gente manter-se em permanente dialéctica…

          «Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges