Poetas cubanos de agora

Poesia Cubana Contemporânea – Dez Poetas
Selecção, prefácio e notas: Pedro Marqués de Armas
Tradução: Jorge Melícias
Editora: Antígona
N.º de páginas: 237
ISBN: 978-972-608-203-3
Ano de publicação: 2009

No excelente prefácio a esta antologia, que reúne uma dezena de nomes essenciais da poesia cubana contemporânea (José Kozer, Reinaldo Arenas, Reina María Rodríguez, Ángel Escobar Varela, Rolando Sánchez Mejías, Ismael González Castañer, Antonio José Ponte, Omar Pérez, Damaris Calderón e Alessandra Molina), o responsável pela selecção, Pedro Marqués de Armas, traça um abrangente panorama da literatura feita em Cuba no último século e meio, da centralidade fundadora de José Martí ao fechamento da política cultural do Estado (durante a segunda década da revolução castrista), passando pelo negrismo de Nicolas Guillén e pela influência do estilo neobarroco de Lezama Lima.
Para Armas, na ilha houve desde sempre uma «sustentada tensão entre poesia e História» que levou, em muitos casos, à leitura da História como poesia, «ocultando a sua extrema violência», e da poesia como palco de «premonições históricas». Os dez autores escolhidos estão entre os que se esforçaram, dos anos 70 em diante, por ultrapassar estes impasses através da autonomização dos respectivos discursos poéticos. São autores já libertos do «lastro da ideologia» e marcados, quase todos, ou pelo desencanto face ao esvaziamento da utopia (os que ficaram) ou pela resoluta oposição ao regime (os que optaram pelo exílio).
Destes últimos, destaca-se Reinaldo Arenas e a sua poesia «ao mesmo tempo lúdica e trágica, colérica e sóbria, desalinhada e efectiva». Veja-se este excerto do poema «Vozes»: «Nós viemos pelo ar / Nós viemos pelo mar / Nós chegámos amarrados ao pneu de um automóvel / Nós chegámos presos à roda de um avião / Nós saímos conjurando tubarões e guarda-costas (…) Sim, sem dúvida somos os mais ditosos / – os afortunados. Os demais jazem para sempre sob o mar / ou condenam a nossa fuga / enquanto secreta e desesperadamente desejam partir.» Menos explícita, a revolta está também presente na torrencialidade lírica de Reina María Rodriguez («estávamos rodeados de horizontes e de água») ou na «suprema exaltação das palavras» de José Kozer. Alguns lamentam, como Ángel Escobar Varela, não ter dito «o adequado no tempo certo, / nem o certo no tempo adequado», mas a questão definitiva talvez seja a que coloca Damaris Calderón (n. 1966): «Há saída possível para fora / ou toda a saída é para dentro, / até ao reino da raiz?»
A tradução de Jorge Melícias, globalmente cuidada, rigorosa e fluida, peca apenas por um ou outro lapso semântico. No poema que aqui citamos de Reinaldo Arenas, por exemplo, onde se lê «guarda-costas» parecer-nos-ia mais apropriado que se lesse «guardas-costeiros».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]

PS – Em resposta ao último parágrafo da recensão, o tradutor Jorge Melícias disse de sua justiça nos comentários a este post. O que eu tinha a responder, ficou também ali respondido.



Comentários

2 Responses to “Poetas cubanos de agora”

  1. Luís Pinto on Junho 30th, 2009 11:34

    «pareceria-nos»? Mas que «ganda» português!

  2. José Mário Silva on Junho 30th, 2009 12:17

    Obrigado, Luís Pinto, pela vigilância gramatical. A emenda já está feita.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges