Pontos fixos e zonas neutras

No Café da Juventude Perdida
Autor: Patrick Modiano
Título original: Dans le Café de la Jeunesse Perdue
Tradução: Isabel St. Aubyn
Editora: ASA
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-989-230-454-0
Ano de publicação: 2009

No Café da Juventude Perdida, a última ficção editada por Patrick Modiano (na Gallimard, em 2007), pertence a uma das mais antigas e persistentes linhagens da literatura francesa: o romance parisiense que toma como protagonista a própria cidade de Paris – com as suas ruas e atmosferas, o seu esplendor ou o seu mal de vivre. Inteligentemente, porém, o autor de Dora Bruder (ASA, 1998) escapa às armadilhas mais vulgares deste subgénero literário, cujos praticantes tendem a ver na Île de la Cité o umbigo do mundo. Se descontarmos um certo afã toponímico, que o leva a referir quase todas as ruas e boulevards da Rive Gauche, Modiano consegue que Paris nos apareça, ao longo do livro, mais como um estado de espírito difuso (emanação da deriva emocional das personagens) do que uma paisagem concreta (banalizada pela pátina turística).
A narrativa começa por evocar, não sem nostalgia, a existência boémia dos intelectuais e estudantes que sonhavam com a «verdadeira vida», sentados à mesa dos cafés, no início dos anos 60. Espécie de placa giratória que acolhe jovens na casa dos vinte anos, sem eira nem beira, socialmente desenquadrados e ávidos de tertúlias, mas também alguns escritores mais velhos (como Arthur Adamov e Maurice Raphaël, personagens reais), o Condé surge-nos como um antro manhoso, ali para os lados do Odéon. Manhoso, entenda-se, em comparação com a elegância do Flore e do Les Deux Magots, os poisos de Saint-Germain a que Sartre conferia uma certa aura.
É justamente no Condé que a personagem central deste romance, uma misteriosa rapariga chamada Jacqueline Delanque, se transforma em Louki, simbolizando mais um dos recomeços que marcam uma vida feita de cortes, ausências e enigmas. «Só era realmente eu própria no instante em que fugia de mim. As minhas únicas boas recordações são recordações de fuga ou de afastamento.» Louki faz do café refúgio, talvez para «escapar a um perigo», mas logo se desvanece, deixando atrás de si um rasto ténue que outros perseguem, tão fantasmagóricos quanto ela.
São quatro os pontos de vista que o romance – poliédrico – nos oferece. Temos a versão da história de Louki contada por um dos jovens do Condé, estudante da Escola Superior de Minas (e prestes a deixar de o ser). Temos o relato seco e melancólico da investigação de um detective, posto no encalço de Jacqueline pelo marido, depois de ela ter inopinadamente escapado de casa e do vínculo conjugal. Temos a voz da própria Louki, às voltas com a atracção pelo abismo. E temos a perspectiva do seu amante, Roland, também ele escondido atrás de um nome falso.
Candidato a escritor, Roland tenta escrever um livro impossível – As Zonas Neutras – sobre umas pouco definidas «zonas intermédias» de Paris, «no man’s land em que nos encontrávamos na orla de tudo, em trânsito, ou mesmo em suspenso». É um esforço inglório, como o de Bowing, que durante três anos registou, num caderno Clairefontaine de capa vermelha plastificada, todos os nomes dos clientes que entravam no Condé, com a data, a hora exacta de chegada e o lugar ocupado. A ideia era «salvar do esquecimento as borboletas que às vezes esvoaçam em redor de um candeeiro», através de «alguns pontos fixos» capazes de vencer o «maelström das grandes cidades».
Como Roland e como Bowing, Modiano procura captar o inapreensível. Mas, ao contrário deles, sabe que é justamente por saber falhar que a sua escrita triunfa.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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