Praça da Liberdade

Tahrir – Os Dias da Revolução
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 110
ISBN: 978-989-671-082-8
Ano de publicação: 2011

Num dos primeiros dias de Fevereiro, Alexandra Lucas Coelho estava nos Açores a lançar o seu belíssimo livro de viagens sobre o país dos aztecas (Viva México, Tinta da China). No dia seguinte voltaria para o Rio de Janeiro, onde há vários meses trabalha como correspondente do jornal Público. O Egipto assaltou então os noticiários internacionais e a praça Tahrir, a abarrotar de manifestantes que exigiam a queda de Mubarak, impôs-se de repente como o centro do mundo. Lucas Coelho nem hesitou: pediu férias e meteu-se no primeiro avião para o Cairo. O livro que acaba de publicar é o diário da semana (6 a 14 de Fevereiro de 2011) que passou dentro da revolução egípcia.
Em nota prévia, a autora sublinha que este não é um trabalho jornalístico. Compreende-se o escrúpulo. Se fosse jornalismo puro e duro, teria de haver mais contextualização histórica, análise política, etc. Pelo contrário, ALC assume de que lado está, integra-se na multidão, toma partido. A «centrípeta e pulsante» praça Tahrir é o palco onde encontra pessoas de todos os estratos sociais, de todas as idades, de todos os credos. Elas querem «falar, e falar, e falar». Alexandra ouve-as e depois conta à sua maneira, delicada e atenta, nunca escondendo o entusiasmo por aquele movimento colectivo que tem «o ímpeto do que é sem artifício». No ar, sente-se sempre a euforia própria dos momentos em que um povo toma o seu futuro nas mãos. Desta vez, com a vantagem de não ter ninguém a liderar. Como diz Ahmed, de 24 anos: «Esta revolução é um corpo sem cabeça, porque se tivesse cabeça eles cortavam-na.»
Aos olhos de ALC, certo rapaz «parece uma versão árabe de Vincent Gallo» e um homem de 50 anos tem «corpanzil de Francis Ford Coppola». Já Wael Ghonim parece Wael Ghonim, o executivo da Google que inventou uma desculpa para voltar à pátria, liderou os protestos no Facebook, foi preso e, depois de libertado, chorou convulsivamente na televisão, ao ver as imagens dos que morreram na praça. De Wael, Lucas Coelho só soube à distância; já outro ícone da revolta, Gigi Ibrahim, que apareceu na capa da Time e foi entrevistada por Jon Stewart, passou por um certo nono andar que é um dos lugares centrais deste livro, apartamento de cuja varanda se podia fazer «zoom» sobre a revolução, nomeadamente no dia da festa da vitória, o dia em que a praça (e o país; e o mundo) explodiu de alegria ao saber que Mubarak resignara, dia a que não faltou sequer o encontro com um jovem italiano que sabe cantar a Grândola de cor.
E depois da grande festa? Depois da grande festa, uma lição de civismo. «Raparigas todas cobertas e raparigas de jeans colados, avós e netos, grupos de homens: quando não estão em plena acção, estão a caminho, cabeça levantada, vassoura ao ombro, como uma enxada. A revolução venceu ao fim de 18 dias insones e tensos. E no dia a seguir qual é a tarefa mais importante? Limpar o lixo como quem limpa 30 anos. Onde antes afundávamos os pés em plástico e entulho, agora não há uma beata.»
Dos jovens egípcios que saíram à rua, unidos pelas redes sociais (sobretudo o Facebook, «único lugar livre»), diz Lucas Coelho: «estão a desarmar o Ocidente, comovendo-o». É impossível não estremecer diante de tanta esperança, mesmo se o «epílogo em aberto» já mostra dúvidas e receios sobre o que virá depois. Mas ALC tem razão: por muito que o futuro atraiçoe as promessas da praça Tahrir, nada «eliminará o que aconteceu» ali durante três fervilhantes semanas.

Avaliação: 8/10

[Versão aumentada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

3 Responses to “Praça da Liberdade”

  1. LuísC on Junho 1st, 2011 0:34

    Não chamaria a este texto uma crítica, é mais um resumo.
    Não se percebe porque dá 8 e não 10 ou 6.

  2. LuísC on Junho 1st, 2011 19:14

    sei que as caixas de comentários deste blog têm estado carregadas de ofensas gratuitas, mas o meu comentário anterior, apesar de n ser elogioso, n era nem desrepeitoso nem agressivo. Não compreendo a censura,

  3. José Mário Silva on Junho 2nd, 2011 12:53

    Não houve censura, apenas atraso na aprovação dos comentários. Ao contrário do que alguns leitores pensarão, eu nem sempre consigo estar online e presente no blogue. Também tenho obrigações profissionais, assuntos exteriores para resolver, uma vida, essas coisas.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges