Preferir não o fazer

Bartlebys Reunidos
Autor: Ricardo Gil Soeiro
Editora: Deriva
N.º de páginas: 66
ISBN: 978-972-9250-94-1
Ano de publicação: 2013

Quando Melville criou, em 1853, a personagem de Bartleby, o escrivão renitente, a história da mais exemplar das recusas transformou-se num emblema que ainda hoje influencia escritores e estimula os teóricos da literatura. Há qualquer coisa na «renúncia da escrita» por parte de Bartleby – na sua obstinação em «não o fazer» («I would prefer not to») – que remete para uma «ética da impotência», capaz de fixar toda a sorte de angústias pós-modernas. Daí o seu enorme poder, quer enquanto conceito, quer enquanto atitude.
Neste conjunto de 30 poemas «em forma de nota de rodapé a um texto invisível», Ricardo Gil Soeiro (investigador do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa) tem como programa «interrogar poeticamente a pulsão negativa e a atracção pelo nada, tal como esta se desenha no labirinto da literatura do Não». Para isso, entrega-se a uma espécie de louvor e complexificação de Bartleby, essa figura dúbia que procura «soletrar / o triste mistério de existir»; e umas vezes é «voz avulsa», outras é «fantasma ausente» perseguindo «sombras», ou «desembrulhando / a noite em câmara lenta». Estas abordagens – marcadas por hesitações e desacertos – dialogam explicitamente com autores que também se aproximaram de Bartleby ou da «problemática da desistência literária»: Vila-Matas, Wittgenstein, Georges Perec, Deleuze, Robert Walser, Blanchot, Celan ou Giorgio Agamben.
Infelizmente, nem sempre a escrita poética de Gil Soeiro – de um lirismo algo enfático – se adequa à procura de um proverbial silêncio retórico que o poema sobre Kafka anuncia: «de quando em vez, assalta-me esta / estranha sensação, a de poder / anunciar o nada nos lábios».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges