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O Aniversário de Astérix & Obélix – O Livro de Ouro
Autor: Albert Uderzo
Título original: L’Anniversaire d’Astérix et Obélix – Le Livre d’Or
Tradução: Maria José Magalhães Pereira e Ana Paula Duarte Caetano
Editora: ASA
N.º de páginas: 56
ISBN: 978-989-23-0653-7
Ano de publicação: 2009

Há precisamente meio século, nas páginas do número inaugural da revista Pilote, nascia uma das mais originais e inteligentes séries de BD de sempre. Aliando a imaginação transbordante de René Goscinny ao traço perfeccionista de Albert Uderzo, as aventuras de Astérix e Obélix deslumbraram gerações sucessivas de leitores, transportando-os para a Gália do ano 50 A. C., quase toda conquistada pelas legiões romanas, à excepção da célebre aldeia de irredutíveis gauleses que resiste «ainda e sempre ao invasor», esse microcosmos narrativo em que Goscinny projectava, através de engenhosos anacronismos, retratos ácidos da nossa contemporaneidade. O problema é que Goscinny morreu (em 1977) e desde então Uderzo, que passou a acumular as funções de argumentista e desenhador, nunca soube preencher esse vazio, nunca foi capaz de superar uma orfandade criativa maior do que o seu talento. A deturpação progressiva do espírito da série – mantida por razões essencialmente comerciais (a «marca» Astérix continua a vender milhões de exemplares, fora o merchandising e os parques temáticos) – atinge um novo limite com a publicação deste «livro de ouro», no qual Uderzo vai buscar as personagens de sempre (o chefe da aldeia, o ferreiro, o peixeiro, o bardo, romanos avulsos, Júlio César) e algumas figuras de álbuns antigos (Lucius Infectadus, Númerobis, os piratas) para com eles fazer uma cascata de homenagens a Astérix e Obélix, tendo como mote o seu 50.º aniversário.
O resultado é uma coisa invertebrada, descosida, um amontoado de cenas desconexas e pouco inventivas, uma espécie de medley de temas recorrentes (os javalis, a poção), ideias falhadas e puros disparates (a passagem de modelos, as insistentes referências a grandes pintores, o cameo de Marsupilami). O único momento verdadeiramente conseguido do livro acontece na página 8, quando Uderzo aparece na aldeia, todo engravatado, e Obélix lhe aplica o correctivo que costuma aplicar aos romanos. Ao aterrar, sem dentes, Uderzo diz isto: «Reconhefo que a ideia voi inveliz! Defculpem! Vuro que não volta a acontefer!» Mas será que o autor deste desastre vai dar, como devia, ouvidos a si mesmo?

Avaliação: 1,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges