Quando a revolução chegou lá acima

1975

Mil Novecentos e Setenta e Cinco
Autor: Tiago Patrício
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 435
ISBN: 978-989-616-569-7
Ano de publicação: 2014

Em Trás-os-Montes, belo romance de estreia centrado numa aldeia da raia, Tiago Patrício ofereceu-nos uma espécie de requiem pela vida rural no interior, imediatamente antes da adesão de Portugal à CEE, com a promessa de fundos estruturais, auto-estradas e progresso económico. A narrativa era também um relato sobre o fim da infância, em torno de quatro crianças expostas de súbito à brutalidade do mundo dos adultos, tão cobiçado como temido. Depois da música de câmara desse primeiro livro, pode dizer-se que Patrício arrisca agora, em Mil Novecentos e Setenta e Cinco, a escala sinfónica.
Nos capítulos iniciais, assistimos ao regresso de Horácio a uma povoação não nomeada, no nordeste transmontano. O rapaz regressa para ver a avó muito doente, trocando «a Revolução de Lisboa por uma última visita à aldeia», mas a suspeita de que possa ser ele o protagonista do livro – talvez mesmo o herói de um romance de formação em atmosfera revolucionária – depressa se desfaz. Horácio é só mais um nome, só mais uma figura numa vasta galeria de personagens que atravessam, de fio a pavio, todas as maravilhas e ignomínias do PREC.
Tiago Patrício avança por este terreno armadilhado com pezinhos de lã, mostrando as várias faces de um conflito aberto, sem nunca tomar partido. Se não é lá muito lisonjeiro o retrato que traça dos Amadeus – família aristocrática com uma Criada Velha, vastas propriedades e hábitos de poder, aos quais se agarra com unhas e dentes –, os seus opositores também não ficam propriamente bem na fotografia. Valdemar, o mais radical dos dois agentes da mudança, deixa-se cegar por uma rigidez programática; enquanto Orlando, o moderado, resvala para compromissos que acabarão por liquidar as conquistas, lá mais para o fim do ano.
Seguindo cronologicamente o calendário, Patrício gere bem uma multidão de personagens e respectivos pontos de vista, mostrando com assinalável destreza narrativa todos os golpes e contra-golpes, as intentonas, as conspirações de taberna, as rixas, os espancamentos por engano, as manobras de diversão, e até um duelo de pistolas (interrompido por um coro de camponesas antes dos disparos fatais). A tensão por vezes irrespirável que paira sobre a aldeia atenua-se através do recurso ao humor. Ninguém escapa ao ridículo e este é distribuído democraticamente por todas as partes, em sequências hilariantes que o autor, também dramaturgo, condensa em cenas de perfeita respiração teatral, servidas por magníficos diálogos.
Numa terra onde as pessoas deixaram de morrer, o Coveiro assume aos poucos o papel de narrador/efabulador dos feitos dos vivos. As fronteiras entre o real e o inventado esbatem-se, à medida que vai entrando a chuva de inverno que tudo leva e dissolve, até à «normalização» definitiva. A dada altura, alguém diz que a Revolução «é a coisa mais linda do mundo, tem assim uma figura de mulher fogosa e cheia de consolos, mas se não a soubermos cativar vai-se embora e fica cá outra vez a velha senhora». Todos sabemos como acabou a história.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges