Quando a vida descarrila

Sonhos e Comboios
Autor: Denis Johnson
Título original: Train Dreams
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 87
ISBN: 978-989-641-291-3
Ano de publicação: 2012

Publicada pela primeira vez há uma década, na Paris Review (em versão ligeiramente diferente), esta novela de Denis Johnson narra o fim de uma época: a da subjugação dos grandes espaços geográficos pela força civilizacional, na América das primeiras décadas do século XX. O protagonista da história, Robert Grainier, é um suposto órfão (na verdade, ignora o que terá acontecido aos progenitores) que foi despachado de comboio para o Idaho, em 1893, e ali cresceu, ali se fez homem. Com milhares de outros operários, participa nos «empreendimentos de grande dimensão» que vão alterando a paisagem. Tanto contribui para a reparação de pontes ferroviárias, «gigantescas estruturas de madeira sobre abismos cada vez mais largos e profundos», como se junta aos lenhadores que desbastam as densas aglomerações de abetos e atam os toros uns aos outros. «Grainier adorava aquele trabalho, o esforço, a capitosa exaustão, o profundo repouso ao fim do dia.» É um labor «comparável à construção das pirâmides», porque muda o perfil das montanhas e leva os homens ao limite das suas forças (terminada a jornada, «caíam para o lado e adormeciam no primeiro sítio onde se deitavam»).
Quando morre com mais de oitenta anos, «bem entrada a década de 60», este homem viu «o mundo dar muitas voltas» mas a sua existência resume-se facilmente em meia dúzia de frases: «Conheceu uma única amante (a sua mulher, Gladys), foi proprietário de um acre de terra, uma carroça e dois cavalos. Nunca se embebedou. Nunca teve uma arma de fogo nem usou um telefone. Viajou de comboio regularmente, de automóvel muitas vezes e de avião uma vez. (…) Não fazia ideia de quem tinham sido os seus pais, nem deixou herdeiros.» Com mestria, Johnson demonstra que por detrás desta aparente simplicidade se escondem abismos tão largos e profundos como as gargantas dos rios no norte dos EUA, por sobre as quais passavam as locomotivas, apitando, símbolos em movimento do triunfo humano.
De certa forma, o instante decisivo na vida de Grainier corresponde a um descarrilamento pessoal. Ao regressar a Idaho, após uns meses a trabalhar noutro estado, encontra a casa destruída por um grande incêndio. Da família, mulher e filha, nem uma sombra por entre o negrume das cinzas. Esta perda, estas mortes nunca confirmadas, mantêm primeiro acesa uma esperança absurda e assolam depois, com devastadora tristeza, o resto dos seus dias. A memória do amor transforma-se em fantasmagoria: Robert tem visões e sonhos em que Gladys reaparece, enquanto a filha Kate assume, a seus olhos, a forma de uma criança-lobo, saída do imaginário selvagem das populações índias da região (os Kootenai). Mas há outros momentos que assombram Grainier: acidentes de trabalho, mortes súbitas, histórias bizarras (a do homem alvejado pelo próprio cão, por exemplo) e ignomínias do passado impossíveis de apagar – a participação activa no quase linchamento de um operário chinês ou a sua recusa de auxílio a um vagabundo agonizante, deixado a «morrer sozinho».
Perto do fim, Johnson descreve a primeira e única viagem aérea de Grainier, paga a quatro dólares entre outras atracções de feira. No instante em que o aeroplano mergulhava «num voo de falcão, com o motor quase em silêncio», ele «viu a mulher e a filha a beberem salsaparrilha Hood’s na cabana, numa noite de Verão; depois, a imagem de outra cabana que não recordava, e lugares da sua infância esquecida, uma vasta seara de trigo dourado, calor a tremular sobre uma estrada, uns braços a abraçá-lo e uma voz feminina a cantarolar». É também assim que esta novela funciona: em voo picado através das várias idades do protagonista, acumulando sensações e atmosferas, despertando no leitor um «imenso assombro».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges