Sob o signo da beleza extrema

necrophilia

Necrophilia
Autor: Jaime Rocha
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-641-162-6
Ano de publicação: 2010

Jaime Rocha encerra, em Necrophilia, um ciclo poético iniciado com Os Que Vão Morrer (2000), Zona de Caça (2002) e Lacrimatória (2005). Inspirada no universo pictórico dos pré-rafaelitas, em particular na relação obsessiva entre Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal (sua musa e modelo), a Tetralogia da Assombração fecha com o livro «da Culpa e do Lamento». Estamos no domínio do amor para além da morte, do amor na morte, o que significa que Jaime Rocha prossegue a partir do ponto em que o romance Adoecer, de Hélia Correia (também publicado pela Relógio d’Água, quase em simultâneo), se suspende. Fixando visões paralelas e complementares sobre a mesma matéria literária, os livros são como que o reverso um do outro, nascendo de uma fascinação comum e partilhada pelo mistério do «desejo negro» que uniu Rossetti e Siddal.
No seu iluminador prefácio, João Barrento sugere que esta poesia instaura um «tempo suspenso», uma «temporalidade sem tempo». E é nessa espécie de hiato que se recortam as figuras que atravessam todos os livros da tetralogia, como projecções do imaginário medieval dos pré-rafaelitas: o pedreiro («construtor de túmulos»), o cavaleiro, o guerreiro, o homem da montanha. Todos eles subjugados, aqui, pela «sombra mágica» que emana do peito da mulher que deixou de viver mas cujo corpo ainda parece dar sentido a todas as coisas. Edgar Allan Poe, em epígrafe, afirma que não há tópico mais poético do que a morte de uma mulher bela. Morte que se transforma, neste caso, numa «presença devoradora», capaz de obliterar as paisagens e de nos aproximar da loucura, de um paroxismo em que o olhar se despedaça, como «uma palavra cortada por um fio / de nylon».
Se há neste longo poema em cinquenta estrofes uma narratividade, trata-se de uma narratividade estática. O texto avança por golpes e fulgurações, uma vertigem de imagens poderosas sucedendo-se umas às outras, deixando atrás de si um rasto de desolação, sofrimento e desamparo. Absolutamente singular no contexto da poesia portuguesa contemporânea, a escrita de Jaime Rocha surge-nos neste livro em todo o seu esplendor, sob o signo de uma «beleza extrema», torturada e herbertiana:

O homem vê uma mancha ao fundo a
mexer-se na sua direcção. É a barca de
Caronte que regressa. A terra engrossa
quando a água é empurrada e o homem
devorado pelo lixo. Os seus pulmões
enchem-se de vazio e morrem, como dois
milhafres deitados num campo de sal. A sua
dor tornou-se mais forte do que as raízes que
rompem o alcatrão. Uma coisa não pássaro
o que ele vê, um vidro a nascer dos socalcos,
um crepúsculo.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 92 da revista Ler]



Comentários

3 Responses to “Sob o signo da beleza extrema”

  1. leal maria on Julho 19th, 2010 2:46

    Citando-te, José Mário Silva: “Se há neste longo poema em cinquenta estrofes uma narratividade, trata-se de uma narratividade estática. O texto avança por golpes e fulgurações, …”
    Afinal em que é que ficámos? É uma “narratividade estática” ou “avança por golpes e fulgurações, …” ? Porque me parece haver aí uma insanável contradição. Golpes e fulguracões remete-nos para um dinamismo abrupto, de todo contrário à ideia que devemos ter de estático; não é!? Espero que quem leia critica literária, tome esta tua critica como paradigma do que são as maiorias das criticas literárias alicerçadas em textos rebuscados: Uma autentica porcaria que mais não serve do que sobre-dimensionar o ego de uma plêiade de intelectuais pedantes. Aliás; a critica até que está consentânea com o poema que seleccionas-te. Se por ele podemos aferir da qualidade dos restantes, pode-se dizer que é uma poesia do mais pedante que há. Estes gajos acham que poesia é escrever meia dúzia de palavras que formam frases sem nexo e meter lá pelo meio uma figura mitológica ou a referência a uma cidade estrangeira (muito gostam eles de parecerem cosmopolitas) e isso é já um poema. Se foi este o poema que seleccionas-te, é porque o tomas como um dos melhores e, como tal, vou permitir-me elaborar uma critica literária a todo o livro com base nele: Uma merda!!
    Espero que não me censures o comentário. Pois esta minha escatologia nada tem de pura provocação, mas o meu mais sincero repúdio pela vossa lata.

  2. José Mário Silva on Julho 19th, 2010 15:45

    Não censurei.

  3. leal maria on Julho 19th, 2010 19:42

    A minha recomendação para que o meu comentário não fosse censurado, foi meramente retórica porque, justiça te seja feita: Para além da pertinência do teu blogue enquanto divulgador da literatura e a possibilidade que ele tem de motivar a discussão sobre a mesma, nunca te vi censurar uma critica se ela não for a coberto do cobarde anonimato.
    Mas de qualquer maneira, como voz que é considerada nos meios literários, esperava de ti um contraditório às minhas afirmações. Pois elas reflectem a minha opinião e a mais ninguém vinculam. Até porque sou um “mau feitio” a quem a obstinação, por vezes, tolda o discernimento e consequentemente me faz errar amiúde. Quem sabe não surgiria daí uma discussão mais ampla sobre o que é poesia em particular e a literatura em geral. Nomeadamente quais a licitude dos diversos caminhos que toma, se é que se pode atribuir essa qualidade a actos criativos.
    O teu blogue é uma referência e sustendo-o actualizado deve-te ser uns “12 Trabalhos de Hércules”. No entanto, penso que deves aproveitar ele ser “Um centro geodésico” no virtual mundo dos blogues de literatura, para o fazeres evoluir para que incorpore na sua natureza actual, a discussão que atrás assinalei.
    É pedir muito, bem o sei. Mas se alguém há que atraia para aqui (blogues)quem por esse assunto se interessa, esse alguém és tu.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges